CONTOS DE NINAR - PEDACINHO

 PEDACINHO

 

Diana e Bené caminhavam na mata por tempo bastante para trocar a água que beberam pelo suor na camisa. Fazer trilha era algo comum para Diana e, por dentro, estava bem feliz por ter conseguido convencer Bené a vir junto. Mas andaram calados grande parte do tempo. Bené sempre tivera problema com conversa fiada, com aquele tipo de pergunta que você não precisa responder. Odiava quando alguém dizia: - Você aqui? Se ele estava lá, a pessoa o via, pra que falar algo tão besta.

Por isso, Diana sempre pisava em ovos e pensava duas vezes antes de abrir a boca quando estava perto dele. Não era algo que lhe agradava muito, mas por Bené, fazia esse esforço. Mas com meia hora de terra despavimentada, já estava agoniada em manter o bico quieto.

- Ainda bem que você concordou em vir – começou Diana quando Bené finalmente fez uma parada de descanso, tirando a mochila das costas suadas e curtindo a paisagem - Estava preocupada.

- Com o quê?

- Seu isolamento.

- Não tô isolado.

- Tá sim.

Ele estava e sabia disso. Sempre parecera bem solitário e o fim do namoro com Alice ainda lhe conferira um tom mais cinza de solidão. Alice tinha conseguido quebrar um pouco da sisudez dele e isso era algo que Diana tinha muita inveja. Mas quando eles se separaram, Bené voltou a ficar quieto, até mais que antes. Por isso, provavelmente não acreditava mais em relacionamentos reais, temia Diana. Mas estava farta de ficar na zona da amizade. Ela o conhecia há mais tempo até do que Alice. Tinha que arriscar tudo e ia ser aqui, nessa parada no meio do mato, com uma linda vista à esquerda deles.

Estavam em um ponto ao lado de uma ravina que despencava para um mundo de beleza verde. Mais alguns metros à frente e o caminho terminaria numa mata densa e seria o momento de retornar. Como voltariam todo percurso dependia do que dissesse agora. Era ou vai ou racha.

- Gosto de você – disse Diana à queima roupa.

- Eu sei – disse Bené sem tirar os olhos do horizonte verde à esquerda.

                Diana esperou que ele falasse mais alguma coisa, mas como ele não abriu a boca, ficou buscando o que dizer para que aquele momento não fosse um fiasco total. Mas um pedacinho de seu coração se quebrou ante a indiferença de Bené.

                Foi esse pedacinho que atraiu a coisa.

- Sinto muito – disse Bené, se sentando numa pedra para apreciar melhor a paisagem, ainda sem olhar para a amiga – Você deve entender que nunca pensei em você de outro jeito.

- É porque sou feia? – perguntou Diana, num momento de extrema insegurança.

                Ela não era bonita de uma forma glamourosa, mas achava que não era de se jogar fora. Já tivera muitos namoricos, muitos garotos interessados. E tinha um corpo atlético, com as curvas certas. Isso com certeza devia valer alguns pontos na cabeça de um cara.

Bené não responde, parecendo mais interessando em pegar na mochila a segunda garrafa d’água que trouxera. Mas ele também estava em conflito por dentro. E como ela um pouco antes, buscava as palavras certas. Gostava de Diana e não queria perder a amizade, mas nunca pensara nela de uma forma romântica. Preferia garotas com aspecto mais frágil já queele considerava a si mesmo uma pessoa bem frágil também. Quando arranjou algo para falar, a coisa apareceu subindo a ravina sem esforço, mesmo que parecesse um homem comum com roupas simples. Magro, com uma camisa de abotoar de manga curta, jeans gasto e sandálias de couro. Parecia um lavrador, parecia um cara do interior, parecia muitas coisas e todas eram falsas.

- Oi – disse a coisa que parecia um lavrador -  Perdidos?

- Fazendo trilha – adiantou-se Diana, ciente de que papo furado não era o forte de Bené – Não tem como se perder se não sair do caminho, né?

- Conheço muitos exemplos que demonstram o contrário – anima-se o lavrador, ainda mais vendo que ela dera abertura mesmo com o coração encolhidinho dentro do peito – Mas quem sou eu pra dizer o que é certo ou errado, né?

- O senhor mora por aqui ou só veio andar também? – perguntou Diana.

- Andar – respondeu o lavrador, finalmente se pondo em pé perto deles, mas sem pisar dentro do caminho marcado no chão, percebeu Bené.

Por um momento, os três ficaram sem ter o que dizer.

- Vocês são namorados? – perguntou a coisa, mesmo tendo ouvido tudo que os dois amigos tinham dito antes dele chegar.

- Não, não! – apressou-se a negar Diana – Somos amigos. Só amigos.

- É. Amor é artigo de luxo. Vivi tudo que tinha que viver e quando os amores não deram certo e porque não. Deram certo, perto, culpa do jeito de xadrez de uma ou outra. Umas de ser, umas de ter – divagou o lavrador, sem perceber que falava coisas desconexas que perturbaram Bené e confudiram Diana - Na onda para mudar por amor, mantemos nova essência e perdermos nossas relações.

Sem dar conta do que falava, ou talvez não se importando, a coisa continuou a falar olhando para o fundo da ravina, onde sombras desmotivariam qualquer um a descer.

- Entendo a solidão de vocês – continuou o lavrador que não era lavrador, dessa vez se voltando para Bené, ainda sentado na pedra, mas alimentando a vontade de pegar na mão de Diana para saírem correndo dali - Há muito tempo escolhi ir aos lugares sozinho por não ter paciência de superar ninguém. Besteira massacrar por massacrar. Isso acarreta em pessoas me chamando de antes social.

- Antissocial – sussurra Diana, se arrependendo um segundo depois ao ver o olhar de censura que o que parecia homem lhe confere.

 - Isso acaba também levando a um entendimento que não há necessidade de me chamar para nada, vou onde quero – desfiou a coisa, andando de uma forma quieta e suave, quase como se flutuasse, até se por a meia distância entre os dois amigos - E com isso,  o tempo foi roendo a corda e os entrelaçamentos entre as pessoas se é rompem. Não importa os abraços e contatos amistosos de antes. O agora chega e nos coloca em novos postos. Por isso não quis deixar de prestigiar quando Orlando me chamou para seu eventos. Há tempos não via aquele grupo. E pensei  que é sábado tudo resolvido entre nós. Ledo engano. Mas você pode pensar: matar pra que? Mesmo que a gente mate da pior maneira possível, a pessoa só morre e pronto, acabou a diversão. A gente só mata se a vitima não for o alvo, mas quem estiver em volta para sofrer, Aí sim vale a pena matar.

                Foi só nesse momento que a ficha caiu para Diana, porque Bené já tinha se posto de pé e tinha realmente a intenção de correr dali com a amiga, se o estranho não estivesse os separando, mesmo que ainda não tocasse o pé no caminho de terra batida. Mas bastaria estender a mão para agarra qualquer um. Ou até ambos, dependendo de sua força. E Bené estava com receio de que aquela coisa devia ser forte, bem forte. E de que aquela não era sua aparência real.

- Quando se pensa no amor, sempre vem aquela coisa romantizada – continuou o lavrador - E suspiramos pelos filmes que vemos, pelos livros que lemos. Mas o dia a dia  do  amor volta e meia te dá uma rasteira . É uma corrida de bigas marcada e vendida e em que se atrasa, e é uma discussão. Por coisa boba, a gente mata e uma não saber, não sabe, não diz.

                Bené achou que a coisa estava se divertindo, tal a despreocupação em continuar falando daquela maneira bizarra. E por um segundo, entendeu que aquela criatura era ainda mais solitária que ele. Que talvez o fato de não dizer coisa com coisa é por pura falta de convívio social, de não saber se expressar mais por causa do tempo em que esteve isolado. Ele mesmo não se enrolava as vezes, quando queria falar algo e as palavras não saiam do jeito que queria? Talvez essa fosse a chave para acabar com aquela situação: deixar a coisa falar, deixar a coisa se sentir à vontade, estender a mão à algo que precisava de comiseração.

- Se os pastores acreditassem no bem e no mal, eles mal abririam suas bocas. A verdade é que não há quem não jogue pelas regras do mundo material, nunca do espiritual. Fala-se do espírito pra se chegar ao vil metal. Mas nós estamos aqui, nós vemos toda essa energia negativa de vocês corrói o mundo. Nós somos uma das trevas.

                O lavrador finalmente encerrou seu palavreado desconexo e baixou a cabeça pesaroso. Bené achou que bastava ficarem ali assim por mais alguns minutos e ele desceria a ravina com o espírito aliviado e ele e Diana poderiam partir em paz.

- Você é maluco? – berrou Diana, surpreendendo Bené – Bebeu? Tá louco, meu senhor? Ora, vai ver se eu to na esquina e leva seu discurso esquisito junto. Vem, Bené, vam’bora daqui!

                Diana contornou o estranho, evitando toca-lo, estendeu a mão e puxou Bené pelo pulso. Os dois chegaram a dar alguns passos de volta na trilha quando o lavrador falou de novo.

- Não vão ainda – pediu, a voz jocosa – Tenho que matar vocês.

                Diana estancou e se virou, Bené quase batendo contra ela. A garota esperou ver o homem erguer um facão ou coisa do tipo, mas ele não estava mais parado onde estivera falando. Ela ficou estarrecida e moveu a cabeça para um lado e para o outro, o procurando até ouvir um estalo do seu lado. Virou-se e viu o lavrador comas mãos no pescoço de Bené, um pescoço que estava agora torcido, fazendo a cabeça do cara que gostava pender de lado. Assim que o homem o soltou, Bené despencou e bateu no chão como um saco de batatas.

- A morte de vocês não me dá prazer – disse a coisa, dando um passo na direção de Diana que recuou por reflexo, não por consciência - É só um meio de passar a mensagem.

- E qual é a mensagem? – balbuciou Diana, arranjando coragem de falar sabe-se lá de onde.

- Vocês não são bem vindos! – disse a coisa estendendo as mãos pro pescoço dela.

 

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