ANTES DE DORMIR - SAIDEIRA

 SAIDEIRA

 

1

Rafa é magrela e esquentado. Sempre que abre a boca, as palavras parecem estar dois tons acima, como agora, enquanto tateia a parede, intrigado, uma das mãos segurando o celular que usa como lanterna.

- Cadê a porra da porta que tava aqui?

Mal acaba de pronunciar a frase e uma porta escura e robusta aparece do nada. Era bem diferente da que usara para entrar naquele aposento. Ela está aberta e Rafa estranha ao notar que ao invés de dar no corredor, exibia uma espécie de guarda roupa embutido onde nem caberia uma pessoa dentro. Mas como ainda estava no impulso de esmurrar a parede, Rafa se desequilibra e queda pra frente, sendo engolido pelo armário e batendo de cara no fundo. A porta maciça se fecha com tremenda violência, empurrando e esmagando o corpo do rapaz de apenas 21 anos, o espremendo no espaço exíguo. A porta grossa se abre e bate mais cinco vezes antes de fechar de vez com um estrondo que ecoa pela casa vazia, o som se espalhando pelo corredor e descendo até aos ouvidos de Toni e Beto no andar de baixo.

- O que foi isso? – diz Beto, sem realmente querer uma resposta.

Toni faz que não sabe, sem conseguir trazer palavras pro gesto, se cagando de medo, mas querendo manter a cara de quem não dá o braço a torcer. No fundo desconfia que algo ruim tinha acontecido ao amigo que os colocara nessa furada. Olha para o alto.

- Rafa? – sussurra, com receio de que algo além do amigo os ouvisse e tudo que consegue e mais ansiedade e silêncio em resposta.

Os dois aguardam e mesmo não querendo, dão um passo na direção do pé da escada.

- Você acha que aconteceu alguma coisa? – sussurra Beto ainda mais baixo.

2

Os três amigos inseparáveis estavam procurando por qualquer coisa pra fechar a noite, qualquer coisa mesmo, uma saideira digna de um sábado insosso. Já tinham bebido todas, tentando xavecar todas. Enquanto voltavam pelo bairro sentindo que ainda dava pra ter bebido um pouco mais, passaram pela velha casa abandonada, a mesma que sempre provocara a curiosidade de todos na época do fundamental, do ensino médio e ainda agora, na faculdade. A que os pais e vizinhos diziam que seria demolida desde os bons tempos em que iam com merendeira para a escola.

Entraram na casa por diversão, iluminando com seus celulares o caminho portão enferrujado adentro, rindo e gracejando, as ultimas risadas do final da noite.

Mas foi passar pela porta da entrada para o álcool trocar de lugar com um desconforto súbito. Menos para Rafa, que sempre fora o mais corajoso da trinca. Quantas vezes ele já não desafiara a honra dos três para invadir esse mesmo lugar infrutiferamente?

E foi ele que, afoito, correu escada acima pro segundo andar. E não voltou.

 

3

- Vamos ter que ir lá em cima – concluiu Toni, sem a mínima vontade.

Beto faz que sim, também sem vontade alguma, por pura obrigação de um código machista que todo jovem que já deixou a adolescência para trás sabe que tem que ostentar. Pensando assim, imediatamente se põe atrás do amigo.

- Eu dou cobertura – diz ele, de uma maneira que fica impossível de saber se é pra rir ou se preocupar.

 Os dois sobem e alguns degraus acima, Toni olha para o cômodo que deixaram e devido à altura, percebe os fios pendendo de bocais de luz, fios que pareciam mais longos, longos demais, como se tivessem se estendido para sondar o ambiente. Sacudiu a cabeça, tendo certeza que essa impressão ainda era resquício de cerveja e deu mais um passo para cima.

Os dois amigos se detêm no alto da escada, observando o corredor longo que dá opção para que peguem a direita ou esquerda.

- Não diz pra gente se separar – balbucia Beto, num fio de voz - Nem fudendo que eu me separo de você agora.

- Relaxa – diz Toni, com uma voz não relaxada e no mesmo volume pífio da voz do amigo, emenda uma última palavra - Rafa?

Eles aguardam.

Nada.

Nada mesmo.

Nem os sons da rua lá fora.

Caramba! Era sábado à noite e um carro eventual tinha que passar por ali, mesmo àquela hora da noite. Talvez fosse tarde demais. Tarde mesmo. Toni dá um passo para o lado esquerdo e Beto o acompanha.

- Rafa?

Na sala abaixo, os fios descem do bocal da lâmpada e as extremidades produzem um leve zumbido de tensão, pairando numa altura pouco acima da cabeça de um cara como Toni. Param e aguardam.

Na cozinha, a pia inerte deixa algumas gotas enferrujadas escaparem. O mesmo acontece com a torneira do banheiro. A impressão que Rafa teria seria a de bocas salivando, antecipando uma bela refeição. Antes de ser esmagado, ele tinha uma boa ideia do que aquela casa era e até tinha comentado isso no bar, entre um papo bobo e outro.

Outros fios se estendem dos soquetes das tomadas inferiores e movem no chão empoeirado, soltando faíscas e produzindo um luz falha na casa, criando uns estalos que o ouvido de Beto capta, tão sensibilizado está agora devido ao pânico.

- Ouviu alguma coisa?

- Não – responde Toni, achando que Beto queria saber se ouvira uma resposta de Rafa – Porra, mano, você está aí?

A falta de resposta fez Toni sentir um frio que vinha de dentro pra fora, deixando o corpo desconfortável. Beto não ajudava, já que respirava de forma audível e incômoda. A pele do amigo estava nitidamente arrepiada. Os dois voltaram os míseros três passos que deram para esquerda.

- Rafa? – ainda tenta Toni, uma última vez.

- E agora? O que a gente faz?

- Não sei.

Não podiam sair dali sem o amigo. O que iam dizer deles?

Mas...

E se fosse tudo uma brincadeira de Rafa?

Iam ganhar a fama de chorões ou coisa pior. Era uma sinuca de bico e a honra de macho estava no topo das apostas. E foi pensando assim que Toni criou coragem e novamente foi para esquerda, seguindo para primeira porta que viu e a abrindo num “agora ou vai ou racha”.

- Rafa? – gritou dessa vez para o quarto vazio.

Nada.

Ainda imbuído pelo brio, deu dois passos adentro e a porta se fechou atrás dele.

 

4

- Toni!? – gritou Beto, mais assustado do que nunca, em segundos que nunca pareciam segundos, se aproximou da porta, estendeu a mão para a maçaneta recorrendo a uma lógica boba no fundo de sua cabeça que insistia que a porta batida fora só o vento - embora nada soprasse ali, o ar parecia entorpecido.

E não foi o vento também que mexeu o tapete comprido embaixo de seus pés, mas que ele mexeu, mexeu.

Beto olhou surpreso pra baixo. O tapete se deslocara, tinha certeza. Sentira um puxão no pé, não forte o suficiente para derrubá-lo, mas ainda assim o fez balançar um tantinho. É só tinha o tapete embaixo de seus tênis. Olhou para direita e temeu ver algo bizarro puxando uma das extremidades. Nada. Se é que a coisa aconteceu, aconteceu por si só, por pura vontade do tapete de uns 6m x 1m. Podia ser também só resultado de todo medo que estava sentindo. Pensar assim serviria de alívio, se o tapete não se deslocasse de novo, para frente e para trás, desestabilizando o rapaz uma vez mais. A coisa aos seus pés realmente parecia viva e afeita a derruba-lo. Beto posicionou os braços como se estivesse em cima de uma prancha de surfe. Conseguiu balancear seu corpo por dois segundos, até o tapete erguer uma das pontas e jogá-lo no chão. Beto nem quis omitir nenhum som, tapando a boca com uma mão enquanto a outra o protegia da queda. Achou que se berrase, a casa ouviria, como se isso pudesse provoca-la. O tapete aproveitou para deslizar pra cima dele, querendo cobri-lo, querendo se enrolar no rapaz como um cobertor no frio, mas antes que isso pudesse acontecer, Beto se pôs de pé de novo e para sua surpresa, o tapete recuou e voltou a posição em que estava, imóvel, como se só tivesse saído para brincar por uns minutos e tivesse se cansado logo.

Beto ia dar mais atenção a essa bizarrice quando o breu o interrompeu. Toda luz da casa foi suprimida pelo seu celular se apagando. As janelas estavam fechadas com tapumes desde sempre e sem outra fonte de luz, Beto não pode fazer nada além de, dessa vez, dar um gritinho de susto que fez os fios lá embaixo sacudirem e se chocarem em festa, fulgurando num azul frágil e produzindo novos estalos insistentes, como se rissem do infortúnio dos visitantes.

 

 

5

- Beto?

Ao se virar, Toni não viu mais a porta por onde entrara, apenas um espelho e seu reflexo. Um espelho de corpo inteiro que se rachou em longos estilhaços triangulares que se projetaram pra fora, mas ainda mantendo-se grudados à moldura, os pedaços cortantes induzindo a aparência de uma boca de cristal. Toni podia ver sua imagem refletida nele, mas seu corpo parecia desmembrado, um membro em cada parte quebrada e com seu sangue espalhado pelas paredes. Sem querer acreditar no que estava vendo, Toni recuou para o meio do aposento e se apalpou e certificou de que estava inteiro e que não havia sangue nas paredes. O reflexo do espelho não ostentava verdade alguma, mas... e se fosse um vislumbre do futuro?

Assustado, o rapaz certificou-se que tudo continuava igual e que seu corpo não parecia querer se dividir como na representação macabra do espelho.

Por sorte, sua lanterna ainda funcionava e ele girou para entender o que mais havia ali para ameaça-lo, praticamente fazendo o mesmo que Rafa minutos antes.

Minutos.

Quem diria que não fazia nem trinta minutos desde que tinham entrado naquela arapuca. Vivendo e aprendendo. Ou melhor, aprendendo e sobrevivendo, para, se os céus ajudassem, poder dar esse toque ao seu irmão mais novo.

Ao ouvir um ruído leve ao lado, Toni desvia seu facho de luz e vê uma porta pesada e escura. Corre até ela e a abre. O corpo esmigalhado de Rafa cai pra frente e Toni só o reconhece por causa da roupa que o amigo estivera usando.

Sem conseguir sufocar mais o medo, grita. Grita de um modo que o som parece carregar sua sanidade junto. Ele se vira e a porta mais normalzinha está de novo onde deveria estar. Ele corre para ela e a escancara pra sair em um corredor muito mais longo e desprovido do que o de antes, sem nada além de paredes intermináveis. A porta se fecha e desaparece. Toni arregala os olhos para expor o que não tem mais voz para expressar, o cérebro fritando e querendo desligar.

 

6

Beto ouve barulhos de passos apressados subindo a escada e assustado, com a certeza de que o que quer que fosse, humano não era, desafivela o cinto e o ergue acima da cabeça. Ia usá-lo como um chicote. Já usara esse macete duas vezes antes para se proteger de alguns apuros em que se metera e a coisa funcionara. Nem percebe um fio sorrateiro descer do bocal do corredor, prestes a tocar sua mão com o cinto, prestes a investir como uma cobra dando o bote. Mas ao não mais ouvir passos, Beto desce o braço e o fio desencapado arremete no nada, ficando a ver navios.

            Arranjando coragem sabe-se lá de onde, Beto vai na direção da escada, já pensando que ia ter mesmo que sair dali e buscar ajuda para os dois amigos e foda-se se o chamassem de cagão. Seu instinto de sobrevivência estava sobrepujando o medo e tudo em seu corpo clamava para que fugisse dali o mais rápido possível.

Aquela era uma casa ruim, como diria Rafa.

Ruim pra caralho, retificou.

Os passos fortes, pesados, voltam e Beto recua de costas, respirando rápido, tentando se preparar para o que ia ver, erguendo novamente a mão com o cinto acima de sua cabeça. O fio, que aguardava pacientemente, se encolhe e se prepara para pegar o rapaz assustadiço. Era só Beto dar mais uns passo para trás...

 

7

Como já vira filmes de terror demais, muitos junto com os dois amigos metidos nessa enrascada, Toni já esperava não ver Beto no corredor.

Pensando nos filmes, tentou decidir o que fazer e ainda melhor: o que não fazer. A maior besteira já tinha ocorrido: se separaram. As chances de sobreviver caiam para 0,0 de acordo com a cartilha do cinema, mas resolveu não entregar os pontos.

Pelo canto do olho, mais sentiu do que viu algo chamar sua atenção. Logo atrás dele, uma nova porta zombava de seu estado mental. Mas entre o corredor interminável e a porta zombeteira, resolveu arriscar nela. Afinal, quem já estava na chuva, era para se molhar mesmo. Toni a abriu já pronto para o pior e o que viu não fez sentido nenhum. Viu Beto com a mão erguida, um fio se agarrando a seu antebraço, o erguendo do chão.

 

8

Ao reparar em Toni saindo do que antes era só uma parede vazia, Beto grita. Toni grita também. O fio reage apertando mais a carne do rapaz e usa a sua ponta para conferir uns choques. A eletricidade era pouca, mais  de susto do que fatal, mas ainda assim, dolorosa. A porta se fecha atrás de Toni como que o enxotando e ele, assustado, encosta no corpo do amigo, suspenso a um palmo do chão, levando um choque de tabela, o que faz com que os dois amigos gritem juntos. Mas algo em Toni faz com que ele reaja melhor e abrace Beto, o puxando para baixo. A força é mais do que o fio desencapado pode aguentar e os dois rapazes desabam no chão. Beto ainda grita, mas Toni lhe dá um tapa ao notar que o perigo imediato não tinha passado. Olha para cima e o fio que antes os ameaçara parece ter se recolhido para dentro do teto.

Os dois ficam um minuto sem se mover, com todos os sentidos do corpo em alerta. Nada mais acontece. Beto se refaz um pouco e coloca a mão na face.

- Porra! Você me bateu!

- Claro! – se inclina Toni para sussurrar – Você estava chamando muita atenção! Trata de ficar calmo! – aconselhou antes de lembrar do corpo de Rafa e acrescentar cada vez mais alto - Fique calmo! Fique calmo, merda!

- Eu já tô calmo! – responde Beto, meio envergonhado – Mais ou menos... Pouco.

            Os dois voltam a ficar parados, prestando atenção na casa, a algum movimento inesperado, algum ruído ameaçador.

Novamente nada.

- O que a gente faz agora? – pergunta Beto, embora já soubesse a resposta: tinham que sair dali o quanto antes – O Rafa...

Toni respira fundo. A luz de seu celular se apaga de vez. Beto quase grita, mas consegue tapar a boca com a mão, como fizera pouco antes.

- O Rafa tá morto – diz Toni e começa a se mover pra frente, engatinhando e esperando que o amigo fizesse o mesmo – Vamos picar a mula!

            Uma sensação estranha e contraditória toma conta de Beto: alívio por pensar em que ia finalmente sair dali mesclando com a tristeza por saber que Rafa não estava mais entre eles. Mas foda-se: fora Rafa que insistira para que entrassem, ele é que os colocara naquele pesadelo.

            De quatro, como bebês, os dois voltam pelo corredor e por sorte, mesmo no escuro, percebem a escada.

- Vamos descer – diz Toni, erguendo um pouco o tronco, mas mantendo uma posição agachada.

            Beto faz o mesmo, calculando que no pé da escada, dois ou três passos os levariam para fora daquele lugar ruim. Foi quando viu as faíscas azuladas. Nem consegue falar, apenas estende a mão e aperta o ombro do amigo a sua frente.

- Que porra é aquela? – finalmente sai de seus lábios.

Os fios que saiam das tomadas se emaranhavam no chão como raízes de uma árvore grande, mas não permaneciam imóveis como deviam: mexiam-se e estalavam, arrastando-se pelo chão sem pressa, se aproximando do pé da escada.

Um ruído pesado e oco os faz virar pro outro lado ao mesmo tempo. Uma tubulação de água irrompe da parede e esguicha água nos dois, com pressão suficiente para desestabiliza-los. Toni e Beto começam a escorregar para baixo, enquanto a tubulação os acompanha, continuando a jorrar água com força.

Os fios no chão parecem aguardar ansiosamente a queda dos visitantes, mas como que por milagre, a mão de Toni se prende ao corrimão para deter a queda e conseguindo agarrar Beto pela axila. A água da tubulação acha seu limite e o jorro perde o ritmo. Os dois amigos aproveitam a parada do jato para achar mais equilíbrio. Mas então, como que perdendo a paciência, os fios ansiosos do chão se esticam e enroscam na vítima mais próxima, no caso, o tornozelo de Beto. No corredor acima, tal qual uma lagarta, o tapete que importunara Beto chega até o topo da escada e se joga em cima de Toni, se enrolando em sua cabeça e o sufocando.

Beto olha para baixo e antes que perca de vez o que lhe resta da sanidade, lamenta às vezes em que os pais queriam que fosse à igreja no domingo. Sempre achara uma perda de tempo, mas se perguntou se faria diferença nesse momento. Sente também que o amigo que tentava sustenta-lo no meio da escada perdia a força. Sentiu quando os dedos se soltaram e foi puxado para baixo, para o ninho sibilante de fiação corroída.

E sentiu que alguém assistia tudo.

Assistia com satisfação.

Era aquela coisa ruim.

A casa.

Beto chega no último degrau com a certeza de que nunca deviam ter entrado naquele lugar.

 


9

- Não acredito em fantasmas – disse Rafa no bar, horas antes, quando a vida parecia tão nítida e palpável – mas eu realmente gostaria que existissem.

- Sério? – diz Toni, incrédulo, achando que o amigo fala por falar, muito por causa do álcool que já tinham tomado.

- Fantasmas provariam que existe um pós-vida, que talvez algo que vimos na aula de catecismo seja possível.

- Fale por você – murmura Beto, meio chapado – Nunca fiz catecismo.

Rafa ergue sua latinha de cerveja.

- Um brinde a isso.

Os três bebem, certos de que aquele é só um tópico a mais na conversa, mas Rafa decide acrescentar um último comentário.

- Mas casas assombradas existem!

- Como assim? – ri Toni – Casa assombrada, tipo, sem fantasma?

- É, como assim? – pergunta Beto, também curioso.

- A casa não precisa ter fantasmas. Ela só precisa ser ruim, que nem gente. Aí ela engana, rouba e mata.

- Casa ruim – ri Beto.

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