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PEQUENOS EXERCÍCIOS - ESCONDIDO
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escondido Estela passa da cozinha para o quarto e olha de soslaio para as crianças se divertindo na sala de estar. Gosta do barulho que fazem e não se importa se ouve um palavrão ou dois. Estavam com dez, onze anos. A maioria já devia ter ouvido seu quinhão de xingamentos dentro de suas próprias casas, mas eram crianças boas. Tinha o Alex, filho do Viriato, o primo José, o Teobaldo, colega de escola e seus filhos gêmeos, o Luis e o Claudio. Claro que tinha que estar pronta para intervir no primeiro grito de guerra. Não era incomum que as crianças saíssem se estapeando em um momento ou outro, mas nessa idade, qualquer briga não durava mais que um dia afastados um dos outro. Checou seu celular que deixara carregando. 87%. Quase lá. Queria deixar chegar aos 100 e so então tiraria da tomada. Voltou para cozinha. As crianças continuavam animadas, mas se preparavam para algum jogo e diminuíram a voz quando ela passou. Tudo bem. Segredinhos também faziam parte. Estela sabia qu...
PEQUENOS EXERCÍCIOS - A COISA EMBAIXO DA CAMA
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a coisa embaixo da cama O velho entra no quarto de seu neto. DENIS Vô, tem alguma coisa embaixo da cama. A criança está bem nervosa, choramingando, e o senhor idoso se aproxima, pronto para consolá-lo. VÔ Não tem nada, rapaz. Cadê seu pai? Ele não veio aqui ainda não? A coisa pega o avô. DENIS Acabou? Vai embora! A COISA EMBAIXO DA CAMA Não. Falta. Chama. DENIS Não! A COISA EMBAIXO DA CAMA Chama. DENIS Não! A COISA EMBAIXO DA CAMA Se não chama, vai você...! A criança pensa em resistir, mas cede. DENIS Pai?
CONTOS DE NINAR - O RUÍDO NO ANDAR DE CIMA
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O RUÍDO NO ANDAR DE CIMA A maioria dos prédios daquele bairro da zona norte eram baixos, de no máximo cinco andares e se concentravam mais na área central, onde o comércio proliferava em lojas grandes e pequenas, das mais variadas. Havia um supermercado bom, duas agências bancárias que logo desapareceriam com o mundo virtual avançando em seus espaços, um hospital que atendia gente de outras áreas também, e um posto policial. O prédio em que Horácio Penedo morava tinha quatro andares. Ele morava no terceiro e a vizinha barulhenta no quarto, no apartamento bem acima do seu. A desgraçada acordava às cinco da manhã e mal saia da cama e já calçava os sapatos. Era um tlec-tlec matutino que sempre incomodava Horácio, que só precisaria acordar para ir pro trabalho uma hora mais tarde, às seis. Ele já fora conversar com ela, mas ao invés de atendê-lo, ela começou a reclamar que ele tinha ouvido de mouco, que ela era uma mulher trabalhadora e tinha mais com que se p...
CONTOS DE NINAR - A CASA NA RUA FLORINAU
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A CASA NA RUA FLORINAU 1 Quando eu meio que tomei consciência de sua existência, denominei apenas como o "vento que ri”. Tinha nove anos então e não tinha medo de coisas que não entendia. Sempre ouvia o riso baixo quando passava na frente do nº 405 da rua Florinau, à esquerda da minha rua, a Dom Pedro. Era o caminho para escola e mesmo novinho como eu era, fazia o percurso sozinho. Meu pai não tinha muito ânimo pra nada, nem pra me levar. Desde que se mudara de volta para casa dos pais, sem dinheiro pra pagar o aluguel, só se preocupava em trabalhar no que chamava de “tapa buraco”. Eu entendia o problema da maneira que uma criança concebia o mundo. Não fiquei muito feliz, mas aceitei. Meu avô não era tão caloroso como os pais de minha mãe, mas estes moravam em outro estado e desde a morte dela, as visitas rarearam até acabarem de vez na minha adolescência. Voltando ao meu pai, ele começou a trabalhar fazendo entregas com a picape de meu avô, um “tapa burac...
CONTOS DE NINAR - PEDACINHO
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PEDACINHO Diana e Bené caminhavam na mata por tempo bastante para trocar a água que beberam pelo suor na camisa. Fazer trilha era algo comum para Diana e, por dentro, estava bem feliz por ter conseguido convencer Bené a vir junto. Mas andaram calados grande parte do tempo. Bené sempre tivera problema com conversa fiada, com aquele tipo de pergunta que você não precisa responder. Odiava quando alguém dizia: - Você aqui? Se ele estava lá, a pessoa o via, pra que falar algo tão besta. Por isso, Diana sempre pisava em ovos e pensava duas vezes antes de abrir a boca quando estava perto dele. Não era algo que lhe agradava muito, mas por Bené, fazia esse esforço. Mas com meia hora de terra despavimentada, já estava agoniada em manter o bico quieto. - Ainda bem que você concordou em vir – começou Diana quando Bené finalmente fez uma parada de descanso, tirando a mochila das costas suadas e curtindo a paisagem - Estava preocupada. - Com o quê? - Seu isolamento. - Não t...
CONTOS DE NINAR - ACUMULADOR
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ACUMULADOR - Sua casa é bonita. - Obrigado. O rapaz olhou em volta, avaliando o lugar. A sala era um tanto vazia, pouca mobília. Provavelmente de propósito, algo minimalista. O sofá parecia meio caído, cansado de guerra. A mesinha de centro não era a que escolheria e a tevê em frente, embora grande, já podia ter sido trocada por um modelo mais moderno. Foda-se. Não viera para isso. Viera só pra se divertir mesmo. Ouviu o tilintar da chave quando o homem atrás dele os trancou. Não se importou também. Já passara por isso antes. Qualquer coisa, tinha spray de pimenta no bolso. E fechar as portas era um comportamento normal no Rio de Janeiro. Nenhuma vizinhança estava mais a salvo, mesmo nesse bairro distante, cuja casa mais próxima parecia estar a um quilometro, pelo menos. Jarden morava no centro de Campo Grande, mas já tinha vindo para recônditos como esse, mais perto do mato. Sempre achara que morava na roça, mas essa casa no meio do nada ganhava o prêmio. O l...