PEQUENOS EXERCÍCIOS - ESCONDIDO
escondido
Estela passa da cozinha para o quarto e olha de soslaio para as crianças se divertindo na sala de estar. Gosta do barulho que fazem e não se importa se ouve um palavrão ou dois. Estavam com dez, onze anos. A maioria já devia ter ouvido seu quinhão de xingamentos dentro de suas próprias casas, mas eram crianças boas. Tinha o Alex, filho do Viriato, o primo José, o Teobaldo, colega de escola e seus filhos gêmeos, o Luis e o Claudio. Claro que tinha que estar pronta para intervir no primeiro grito de guerra. Não era incomum que as crianças saíssem se estapeando em um momento ou outro, mas nessa idade, qualquer briga não durava mais que um dia afastados um dos outro.
Checou seu celular que deixara carregando. 87%. Quase lá. Queria deixar chegar aos 100 e so então tiraria da tomada.
Voltou para cozinha.
As crianças continuavam animadas, mas se preparavam para algum jogo e diminuíram a voz quando ela passou. Tudo bem. Segredinhos também faziam parte. Estela sabia que os meninos da rua tinham acabado de descobrir a bobeira eterna de uma bíblia amarrada com um laço, tesoura e perguntas a serem respondidas. Ela mesma tinha brincado disso na varanda da casa de uma amiga. E tinha brincado também com o copo que “andava” e com a bola de cristal fajuta que uma amiga trouxera de uma viagem.
Fez sanduiches e preparou suco, nada muito requintado. Não ia usar o presunto de Parma que comprara para o final de semana, colocou só o queijo minas que estivera em promoção da ultima vez que foi no supermercado. Estava quase tudo pronto, faltava só colocar numa bandeja e abrir o pacote de guardanapos. Era o que ia fazer quando ouviu seu celular tocando. Foi ao quarto e nem percebeu como as crianças estavam paradas e quietas em volta da mesinha de centro da sala. Paradas mesmo. Imóveis. E as expressões a teriam deixado preocupada. Ela nunca vira os filhos e os amigos tão... sem vida.
Atendeu o celular tarde demais. A ligação caiu. Pelo menos foi o que pensou. Isso a irritou. Conferiu a bateria. 92% agora. Pousou o celular com cuidado e voltou para cozinha. As crianças ainda estavam paradas, mas ela estava tão irritada com quem quer que tivesse ligado e interrompido seu momento. Como ousavam? Só podia ser cartão de credito ou alguma operadora oferecendo mundos e fundos. Era sempre a mesma lenga-lenga inútil. As pessoas não ligavam mais, tudo era mensagem. Como é que ela ainda atendia o celular com esperança de ouvir uma voz conhecida? Como era tola...
Colocou os sanduiches na bandeja, uma pilha de guardanapos de lado, alguns copos plásticos descartáveis e a jarra do suco numa bandeja e partiu para sala. Estava satisfeita com o que conseguira preparar em tão pouco tempo. Que nunca dissessem que era uma má anfitriã.
- Crianças, veja o que... – começou a dizer e se deteve, tanto nas palavras como no andar.
Não havia mais nenhuma criança em volta da mesinha de centro. E nem no chão ou no sofá ou onde quer que fosse.
A primeira ideia que passa na cabeça de Estela e a de que estavam brincando de esconde-esconde, mas ela já tinha proibido isso dentro de casa, desde a vez em que os maiores assustaram seu filho menor apagando a luz do quarto onde ele tinha se escondido e fazendo barulhos fantasmagóricos.
- Crianças? – chamou Estela no vazio da casa e nem reparou na coisa que era bem alta e magra se avolumando logo atrás de si e se inclinando para frente para tocá-la ao mesmo tempo em que estendia a boca largo o suficiente para caber uma criança.
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