CONTOS DE NINAR - O RUÍDO NO ANDAR DE CIMA
O RUÍDO NO ANDAR DE CIMA
A maioria dos prédios daquele bairro da zona norte eram
baixos, de no máximo cinco andares e se concentravam mais na área central, onde
o comércio proliferava em lojas grandes e pequenas, das mais variadas. Havia um
supermercado bom, duas agências bancárias que logo desapareceriam com o mundo
virtual avançando em seus espaços, um hospital que atendia gente de outras
áreas também, e um posto policial.
O prédio em que Horácio Penedo morava tinha quatro
andares. Ele morava no terceiro e a vizinha barulhenta no quarto, no
apartamento bem acima do seu. A desgraçada acordava às cinco da manhã e mal saia
da cama e já calçava os sapatos. Era um tlec-tlec matutino que sempre
incomodava Horácio, que só precisaria acordar para ir pro trabalho uma hora
mais tarde, às seis.
Ele já fora conversar com ela, mas ao invés de
atendê-lo, ela começou a reclamar que ele tinha ouvido de mouco, que ela era
uma mulher trabalhadora e tinha mais com que se preocupar do que com um sujeito
neurótico. Chegou a mandar um “Você não sabe com quem está se metendo” que soou como um “Você sabe com quem está
falando?”, como se ela não morasse num prédio sem elevador no subúrbio que nem
porteiro tinha, com o zelador bancando de síndico e de faz-tudo. Meteu também
um “Vá com os diabos” e bateu a porta e Horácio viu que ali não teria solução à
base de diálogo.
Horácio tinha 42 anos e não se considerava um cara
neurótico. Nem achava que sua audição estava acima da média. Vivia perdendo o
fio da meada se conversava com alguém com muito ruído por perto. Imaginou que a
postura agressiva da vizinha se devia ao fato dela também não estar satisfeita
de acordar tão cedo, mas isso não justificava ela não poder fazer um esforço de
deixar para colocar o sapato só quando estivesse para sair de casa.
Pensou em reclamar à imobiliária, quem sabe
poderiam intervir, mas pensando bem, nem o problema da pintura caída no
corredor do segundo andar eles tinham agilizado, avalie resolver algo trivial
assim. E Horácio não queria ser visto por eles como um bundão.
Experimentou bater com o cabo de vassoura no teto
quando ela começou seu tlec-tlec matinal. Não adiantou. Pode ouvir ela o
xingando lá de cima, só entornando mais ódio de ambas as partes à situação, já
que ela pareceu pisar ainda mais pesado no chão.
Decidiu gravar
com seu celular o barulho que ouvia, para ter um tipo de prova, para mostrar
aos outros que não era frescura da sua parte, mostrar sua agonia ao ser
acordado por aquele som zombeteiro, mas a qualidade da gravação parecia ampliar
os barulhos de seu próprio apartamento, os ruídos que ele mesmo fazia ao tentar gravar em detrimento
ao que vinha do teto.
Bom, até captar o baque.
Já era a terceira vez que acordava perto das cinco
para tentar gravar o desfile de salto alto da vizinha da melhor maneira
possível. Como não tinha escada, na primeira madrugada, apenas ficou em pé e
esticou o braço para cima, esperando que o alcance fosse o suficiente para
obter uma boa captação.
Não foi.
Da segunda vez, subiu em cima de uma cadeira. Não
chegou a tocar o teto por um palmo, mas novamente ficou insatisfeito com uma
captura de som ainda aquém do que almejava.
Para sua terceira tentativa, pôs um pufe cuboide em
cima da mesma cadeira da madrugada anterior. Era arriscado, ia ter que se
equilibrar como criança num momento em que a barriga aumentava e o cabelo
diminuía, mas estava disposto a qualquer coisa para cessar o sofrimento de seu
despertar involuntário. Já tinha deixado as coisas no lugar antes de dormir e quando
o alarme do aplicativo o acordou às 4:45, bastou jogar uma água no rosto, pegar
o celular e subir na cadeira e no pufe rezando para não chacoalhar muito.
Ligou o aplicativo de áudio do celular, esticou um
pouco a mão e aguardou. Seu rosto estava bem perto do teto dessa vez, achou que
ia conseguir um bom material para seu caso de pequenas causas. Se não parecesse
presunçoso, ameaçaria sorrir. Talvez até estivesse fazendo isso quando algo
bateu forte no piso do andar de cima, produzindo um som compacto, mas alto,
totalmente diferente do incômodo e agudo som dos saltos femininos. Horácio
ficou sem saber como proceder. Conseguira prova de barulho, com certeza, mas
não o tipo que esperava e esse parecia o de um corpo caindo sem vida, já que
não houve nenhum berro, grunhido ou até um xingamentozinho de raiva, algo que
caberia dentro do repertório da vizinha irritante.
Horácio odiou admitir, mas era um cara bem
suscetível, além de fã devoto de séries criminais. Para ele não tinha erro: a mulher
lá em cima tinha caído da cama que nem um saco de batatas e estava desacordada
ou quem sabe
... morta?
Horácio teve
sentimentos conflitantes ao pensar nisso.
Por um lado, seu problema estaria resolvido e não
teria mais que se preocupar com aquele ser insuportável. Por outro, tinha que
bancar o ser humano diante da sociedade e tentar ser solidário. Estava nesse
dilema quando deu um pequeno espirro involuntário. Seu corpo estava reagindo a
algo que seu cérebro ainda não tinha processado de maneira eficiente: um
cheiro. Um cheiro estranho descia pelo teto e o agrediu com sua densidade crua
e pestilenta. Era desagradável e preencheu o quarto muito rapidamente. O apartamento
já tinha passado por experiência semelhante quando Horácio quebrou uns ovos
podres da dúzia que resistia no refrigerador. E foi isso que o fez descer do
cubo e da cadeira para ir até a cozinha fuxicar o fogão, farejando perto dele,
imaginando ter deixado algum bocal de gás aceso. Tudo parecia no lugar e com
uma pulga atrás da orelha, Horácio voltou para seu quarto. O cheiro ainda
estava lá, mas tinha se acomodado e parecia menos agressivo agora, dispersando
para os quatro cantos do ambiente. Horácio fez uma careta e olhou para cima.
Devia ir agora lá no quarto andar, bater na porta,
ver se algo tinha acontecido com a xexelenta?
Enquanto remoia o que fazer, ouviu um novo som
vindo do alto, mais baixo. Soava como várias vozes sussurrando junto enquanto
alguém andava para um lado e para o outro do quarto. Seria a vizinha? Tinha
sido só um susto? O problema é que o andar era parecido com o que ouvia antes,
o tlec-tlec de alguém andando acima de sua cabeça, mas dessa vez o ruído parecia
mais rude, descoordenado, de alguém – ou algo – muito mais pesado que a sua
vizinha encrenqueira. Foi nessa hora que o cagaço veio de vez e Horácio passou
das suas amadas séries criminais para os filmes de terror que assistia
escondendo o rosto e com o controle na mão para congelar a cena antes do jump
scare.
“Que porra é essa?’ pensou, já decidido que não
tinha nada a ver com a história e que devia correr e jogar essa merda para cima
do síndico barra zelador barra faz-tudo ou qualquer um outro, menos ele. Olhou
o celular pra checar a hora e viu que
este ainda gravava. Cancelou a gravação e retornou ao menu principal do
display, pensando em ligar para a polícia. Reparou que um aplicativo indicava
novas mensagens recebidas e estranhou. Não havia nenhuma notificação quando foi
despertado, quando teve que desligar o alarme e por mais chatas que as
operadoras e companhias de cartões fossem, não as imaginava mandando ofertas às
cinco da manhã.
Por pura falta de senso, resolveu checar a mensagem
que recebera antes de ligar para emergência...
... e tomou mais um susto.
“Suba, estamos esperando por você” foi o que leu.
- Tá amarrado –
sussurrou Horácio, decidindo que não ia ficar ali nem mais um minuto, ia sair
para rua do jeito que estava, de camisa surrada e shorts velho, não ia nem
calçar o chinelo.
Uma risada explodiu no quarto acima do
seu. O som nem parecia humano, não dava nem para dizer se parecia masculino ou
feminino. O coração de Horácio quis sair pela boca, mas ele já passara alguns
perrengues na vida e por isso, conseguiu forças para disparar para sala e
depois de um pouco de erro e acerto, abrir a porta, sair pro corredor, correr
para a escada e em minutos, rua. Foi
para calçada oposta ao de seu prédio e ficou encarando as janelas do terceiro e
do quarto andar. Quem passava por ele o tomava por louco, mas ninguém parava
para saber o que estava acontecendo já que too mundo tinha que sair por aí para
ganhar a vida.
Horácio também.
Quando foi chegando sua hora habitual de acordar,
ele já ponderava suas opções, já pensava em alternativas mil. Sabia que não
podia faltar ao trabalho alegando que achava ter ouvido ruídos esquisitos no
apartamento acima do seu. Ia ser mandado embora por justa causa, imaginou. Não
podia se dar a esse luxo, precisava do dinheiro para poder pagar o aluguel e a
luz do mesmo lugar que estava lhe produzindo arrepios nesse instante.
Seu eu do dia a dia começou a batalhar com seu eu pós-susto.
Vida concreta versus situação absurda.
Vida concreta versus situação de merda.
Vida concreta versus “Será que era o despertar de
um sonho ruim, uma impressão, uns daqueles momentos que você fica perdido, como
quando tira um cochilo bom de tarde e acorda achando que já é o dia seguinte?”
Não tinha jeito: ia ter que voltar pro seu lar e se
arrumar pra ir pro trabalho. Ia conversar com o síndico/zelador/faz-tudo
primeiro. Alguém responsável precisava ir lá no quarto andar.
Decidido, Horácio começou a atravessar a rua e no
meio dela, ouviu o som de notificação, pegou o celular por reflexo e abriu o
aplicativo de mensagem.
“Você não sobe, a gente desce”, conseguiu ler antes de ouvir o vidro da janela lá em cima quebrando. Ergueu o rosto e viu a coisa que estava nua e peluda nos lugares errados descendo em velocidade na sua direção, a boca cheia de dentes pontiagudos, sorrindo de forma debochada. Antes de ser atingido, Horácio ainda conseguiu ver os cascos que produziam sons mais fortes do que os de um sapato de salto alto.
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