CONTOS DE NINAR - A CASA NA RUA FLORINAU

 A CASA NA RUA FLORINAU

 

 

1

Quando eu meio que tomei consciência de sua existência, denominei apenas como o "vento que ri”.

Tinha nove anos então e não tinha medo de coisas que não entendia. Sempre ouvia o riso baixo quando passava na frente do nº 405 da rua Florinau, à esquerda da minha rua, a Dom Pedro. Era o caminho para escola e mesmo novinho como eu era, fazia o percurso sozinho. Meu pai não tinha muito ânimo pra nada, nem pra me levar. Desde que se mudara de volta para casa dos pais, sem dinheiro pra pagar o aluguel, só se preocupava em trabalhar no que chamava de “tapa buraco”. Eu entendia o problema da maneira que uma criança concebia o mundo. Não fiquei muito feliz, mas aceitei. Meu avô não era tão caloroso como os pais de minha mãe, mas estes moravam em outro estado e desde a morte dela, as visitas rarearam até acabarem de vez na minha adolescência. Voltando ao meu pai, ele começou a trabalhar fazendo entregas com a picape de meu avô, um “tapa buraco” do qual reclamava constantemente e que uma vez me disse ter aceito só para satisfazer a sociedade, pois não lhe daria futuro e nem reconhecimento. Como aquela era uma cidade pequena, cambando para o rural, até que ele tinha serviço o suficiente para que não me faltasse nenhum material para levar para escola. Ele só não me levava mesmo. Mas foi bom, porque assim pude perceber o vento que ri e isso era uma coisa minha, que eu sabia que não podia dividir com ninguém porque era algo mágico, algo que pertencia ao mundo de crianças e eu já tinha convicção que adultos não olhariam para aquela historia com os mesmo olhos.

O vento que ri só mudou e tomou forma no dia em que o valentão da escola (sim, sempre existe um, mesmo nos lugares mais afastados) decidiu me fazer de couro de tamborim na calçada do 405.

E foi por nada.

Só porque eu ganhei um presente da professora por ter sido o aluno que venceu o concurso de soletrar na nossa sala. Geraldo já estava repetindo de ano e nem quis fazer parte da competição, por que implicar então? Que palhaçada, falta do que fazer, como diria meu avô. Claro que não disse isso quando ele veio atrás de mim sem que eu percebesse e me alcançasse antes de eu virar a esquina para chegar em casa são e salvo.

- Ei, sabichão – chamou Geraldo, já colocando a mão no meu ombro e me virando para encara-lo. Por sorte ele estava só e não havia mais gente da minha sala vindo naquela direção para testemunhar meu infortúnio. – Quem você pensa que é, turista?

            Sim, eu ainda era considerado turista ali no lugarejo.

- Oi? – foi tudo que pude dizer, ainda totalmente inocente do que podia acontecer, e acrescentei indolentemente. – Que foi?

Geraldo não estava muito pra conversa. Talvez algo dentro dele tivesse acumulado por muito tempo, porque até onde eu soubesse, ele nem era de provocar tanto a ponto de partir pra cima. Ele se valia de seu corpo avantajado e fazia piada com todo mundo, às vezes de uma maneira não muito legal, mas como se destacava no futebol, não construía inimizades, circulava de boa no recreio e eu nunca que podia esperar o que ele fez em seguida, me acertando um soco. Até perdi a noção de que o planeta continuava rodando ao nosso redor. Fui ao chão e ele veio junto, mas por sorte apenas dando tapas para mostrar o quão por cima estava e pude ouvi-lo dizer “quem você pensa que é”, que me soava como “não sou o pior da sala”. Acho que de certo modo, a coisa era até um tanto triste e eu poderia chegar a sentir pena dele, se não estivesse sendo a vitima ali. Independente do ridículo da situação, o gramado na frente da casa do 405 se agitou, embora eu não pudesse ver por trás do muro. A casa era velha, a pintura já gasta, com aquelas partes escuras em cima e embaixo, manchas provocadas pela umidade e chuva. O muro era de altura média com a parte inferior de alvenaria e a superior com uma grade de metal trançado, com partes vazadas em forma de losango. O portão de entrada também era assim, de metal com losangos vazados, permitindo uma visão boa do quintal da frente. E parecia frágil, algum garoto mais corajoso podia tentar força-lo para entrar. Mas a casa tinha aquele ar de “não brinque comigo” e parecia julgar quem a encarava. Alguns alunos sabiam que eu morava perto dela e acho que teria ouvido alguém no recreio comentando quem teria se atrevido a entrar ali. E nem comentaram também sobre o caso do garoto que morou ali, o Estevão Nascimento. Diziam que o pai o estrangulara ali na entrada, perto do portão por onde o garoto tencionara fugir de sua fúria ébria. O quintal tinha sido sua última visão do mundo.

Talvez essa memória seja o que segura algumas pessoas por aqui, comentei certa vez. Estevão não concordou,nem discordou. Tivemos muitas conversas depois do dia em que Geraldo me acertou. Gostava delas, mesmo que não compreendesse certas coisas muito bem, nem naquela época e nem ainda agora, quando já tenho coragem de chamar algumas meninas para o canto do baile.

O que sei é que naquele em dia em especial, o portão se abriu sozinho e Geraldo desviou sua atenção de meu rosto para algo que o assustou, algo que o fez se por de pé  no mesmo instante e sair correndo dali como se tivesse visto um fantasma.

Na verdade, foi exatamente o que viu.

Até porque eu estava vendo também.

Um garoto me olhava do portão entreaberto, o rosto pálido sem contornos nítidos, como um desenho esfumaçado, sem arte final.

- Oi – disse eu.

 

2

            Não foi problema nenhum entrar no quintal e sentar no gramado, curioso com o garoto fora de foco que se sentou a minha frente. Olhei para tudo em volta: a casa envelhecida, cansada de tanto descaso e abandono, o jardim até que bem tratado onde uma única arvore de tamanho médio, um Pau Fava sem flores ainda, parecia oferecer conforto em dias quentes.

- Não está com medo? – disse o garoto transparente.

            Fiz que não, ainda bem curioso, Olhei o muro. A grade vazada permitiria que pessoas mais altas nos vissem ali. Será que veriam a forma sentada tão pertinho de mim ou achariam que eu estava conversando sozinho, feito um maluco. É que eu o via e ouvia, mas era menos ver e ouvir e mais sentir. Mas não me importei. Na verdade achava divertido.

- Qual seu nome? – perguntei com uma vontade sincera de saber.

- Estevão.

- Você toma conta dessa casa?

- Acho que sim.

- Não precisa ir pra escola?

O garoto fantasma fez que não.

- Sorte sua. Já que não precisa ir pra escola, onde costuma ir?

- A lugar nenhum – respondeu ele num tom triste – Não posso sair daqui.

- Por que?

- Há outros lá fora – responde o garoto triste – Eles podem me arrastar e eu me perder para sempre.

- Caramba!

- Melhor eu ficar aqui e esperar.

- E esperar pelo quê?

- Não sei.

            Não me importei com a resposta, era uma resposta boa como outra qualquer e continuamos conversando, mesmo que o papo não levasse a lugar nenhum. Ainda assim era a conversa mais longa que eu tinha tido desde que minha mãe morrera.

 

3

- Pai, você acha que mamãe ainda pode estar morando lá em casa?

Meu pai parou de carregar a traseira do caminhão com caixa de mantimentos que levaria para uma fazenda afastada e me olhou com curiosidade.

- Como assim, João?

- Será que ela pode ter virado fantasma? Será que ela podia estar vagando lá em casa? Será que se a gente voltasse lá agora, a gente ia poder vê-la?

- Ei, calma, calma... – riu meu pai, se aproximando de mim e se inclinado para que seu rosto ficasse na altura do meu – Você tá achando que sua mãe pode estar lá na nossa velha casa?

            Fiz que sim.

- Tipo um fantasma?

- É, que nem meu amigo Estevão.

- Estevão?

            Expliquei a ele sobre meu encontro com o vizinho desencarnado. Falei sobre o vento que ri e como ele me ajudou contra um valentão. Meu pai ouviu atentamente, sem me interromper. Refletiu sobre o que eu disse, não me fez perguntas desnecessárias, procurou me entender, eu acho. Quando voltou a falar, voltou ao tópico anterior.

- Sua mãe foi uma mulher boa e morreu de uma maneira que ninguém queria, mas pelo menos não foi algo tão traumatizante como um acidente infeliz. Acredito que ela cumpriu o papel dela e deve ter feito a passagem em paz.

            Fiquei olho no olho com meu pai, esperando que ele acrescentasse mais alguma coisa, mas ele simplesmente se aprumou e voltou para as caixas que tinha que carregar. Eu me virei para ir pro quarto fazer meu dever de casa.

- João – chamou ele, suspendendo uma caixa com algum esforço e o apoiando na lateral.

            Eu me virei já quase na quina da casa e o encarei.

 - Não fique falando sobre essa historia de fantasma com ninguém, tá bem?

            Fiz que sim e segui para o dever de casa.

 

4

- Meu pai não quer que eu fale sobre você.

- Você vai deixar de vir aqui? – perguntou Estevão com um que de tristeza.

- Ele disse para eu não falar sobre você, não para eu não falar com você.

            Estevão sorriu aliviado. Acho que eu entendia a solidão dele, era parecida com a minha, embora a minha se refletisse mais no fato de meu pai trabalhar muito e eu não ter mais mãe, estar numa cidade nova e não ter feito amigos ainda.

- Sabe uma coisa engraçada? – falou Estevão cm aquele voz que parecia estar vindo no vento.

- O que?

- Ninguém nunca se perguntou o porquê desse jardim estar bem cuidado, daquela árvore resistir. – disse Estevão, apontando para o Pau Fava.

- É você que cuida dela?

Estevão fez que sim com orgulho e fiquei contente por ele. Parece que tinha achado algo legal para preencher seus dias. Pelo menos, parecia algo melhor do que ter dever de casa.

 

 

5

- Pai, podemos ter uma árvore no quintal?

- Por que? – perguntou meu pai, trazendo uma cerveja e se sentando na cadeira de descanso perto de onde eu cavucava a terra na frente da casa de meu avô – Foi a escola que pediu?

            - Não – disse sem pensar – É que o Estevão...

Eu me interrompi, mas o nome já tinha saído. Papai pedira para eu evitar falar sobre fantasmas e eu conseguira fazer isso tão bem pra tudo que é lado e aí vou eu e abro o bico logo com ele.

- Seu amigo fantasma? – prosseguiu meu pai sem parecer se importar muito e eu fiz que sim, aliviado por não ser repreendido. – Ele tem uma árvore?

- É.

- Ele cuida da árvore?

- É.

- Você vai saber cuidar de uma árvore?

            Fiz que sim, embora soubesse que não tinha noção do que fazer, mas qualquer coisa, perguntava ao Estevão.

- Pede ao seu avô – concluiu meu pai.

- Me pedir o que? – disse meu avô saindo de casa com uma cerveja na mão também e indo se sentar na cadeira ao lado do meu pai.

            Encarei meu avô e fiquei sem graça. Meu avô era meio ranzinza, não gostava de ser aporrinhado. Meu pai e ele mal conversavam. Meu pai dizia que era para não se estranharem, ainda mais nessa situação chata, morando de favor. Fiquei confuso, se abrisse a boca, ia acabar falando do Estevão e papai pedira para eu não falar sobre isso, e então deixei pra lá e resolvi continuar mexendo na terra antes de dar com a língua nos dentes.

- Nada, deixa pra lá – disse, dando de ombros e colocando a terra de volta, tampando o buraco que eu fizera. – Tudo no lugar de novo.

- Ô, César, o que há de errado com seu filho?

- Parece que ele tem um amigo imaginário, um tal de Estevão...- disse meu pai, sem se importar muito, já que ainda me via menor do que sou.

            Mas a reação de meu avô foi diferente, pude notar que ele retraiu, foi dar uma olhada em algo lá dentro dele e quando voltou, veio com uma máscara diferente da que usava diariamente.

- Estevão? – falou meu avô com uma voz que parecia pisar em ovos - Ô João, esse Estevão tem alguma coisa a ver com a casa abandonada na rua Florinau?

            Eu fiz que sim, mesmo com medo que meu avô me repreendesse mais severamente que meu pai. O velho pareceu calmo por fora, mas algo me dizia que ele estava domando um tornado por dentro. Bom, é o que me parece agora, tantos anos depois.

- Olha, não sei de onde você tirou esse nome, quem te falou o quê, mas evite a partir de agora, não repita esse nome mais – pediu meu avô.

- Por que?

- É a história mais trágica da cidade, a desse Estevão, e ninguém quer reabrir velhas feridas – respondeu o velho, incomodado com ter que falar mais sobre isso ao invés de ser obedecido prontamente – O garoto morreu e o pai beberrão ainda se enforcou logo depois.

- Caramba! Eu não sabia dessa parte!

- E eu não sabia nada disso – disse meu pai, interessado e se inclinando para meu avô, como que querendo ouvir mais – Como foi isso?

- Você não soube porque eu nunca te disse e porque não interessa, já passou e machucou muito, as pessoas levaram um bom tempo para deixar a ferida cicatrizar, mas aos poucos, a cidade voltou a respirar.

- Vixi! Tá bom – disse papai, voltando a encostar na cadeira e meio que dando de ombros para o assunto.

Já eu gostaria de ouvir um pouco mais e me aproximei deles.

- Fala mais, vovô.

- Você tem ido naquela casa? – foi a resposta ríspida de meu avô.

Meu pai me fitou com o rabo do olho e eu fiz que sim.

- O Estevão está lá?

            Novamente fiz que sim e o rosto de meu pai fez um “oh-oh”.

- Não fale isso com ninguém! – disse meu avô, consternado - Sua avó era assim também, sabia?

            Meu pai virou o rosto pro outro lado, como se não quisesse ouvir o que viria depois.

- Ela via essas coisas – inflamou-se meu avô – E sabe o que aconteceu? Chamaram ela de maluca, de possuída, de um monte de coisas! Isso sem falar das pessoas que vinham em cima dela pedindo coisas que ela não podia fazer! Foi um inferno! Tivemos que nos mudar. Foi assim que viemos parar nessa cidadezinha de merda. E acho que foi isso que a levou mais cedo, que Deus a tenha. Agora já me acostumei com esse fim de mundo. Fique calado para não termos que sair os três daqui de vez.

            Eu fiquei sem saber o que dizer e busquei apoio em meu pai, mas ele continuava olhando pro muro, se afastando de nós.

- João, me faz um favor e não volte mais lá, tá bem? – continuou meu avô – A cidade não precisa de um menino maluquinho que fala com fantasmas, isso não faz bem a ninguém. Quer que te chamem de esquisito na escola?

            Fiz que não me lembrando de meu colega de classe, de Geraldo me acertando um soco. Não queria mais chamar atenção, tinha aprendido minha lição.

- Não volte mais lá! – repetiu meu avô e se virou para entrar na garagem.

            Fiquei matutando sobre o que ele disse. O pai matou o filho e se matou logo depois. Deve ter se arrependido. Talvez Estevão não soubesse disso. Talvez devesse saber. Talvez eu devesse ir lá só mais uma vez, pelo menos para contar esse detalhe. Talvez isso fizesse meu amigo se sentir melhor.

 

6

            Esperei todos irem dormir, o que foi bem difícil, pois se tem uma coisa que eu gosto é de dormir também. Mas mesmo sonolento, resisti, pois minha vontade de encontrar Estevão uma última vez era mais forte. Havia até uma certa urgência que eu não conseguia distinguir ou definir, mas que estava lá, premente.

            Pulei a janela, atravessei o quintal, pulei o muro para evitar o “nhéééém” do portão e corri até o número 405.

            Assim que entrei na casa abandonado, vi meu amigo cuidando da árvore solitária.

- Oi, o que está fazendo?

- Tentando cuidar dela – respondeu Estevão de modo triste – Tem algo acontecendo, ela está estranha. Tenho medo que morra.

Fui pego de surpresa pela primeira vez naquela noite. Nunca tinha pensado nisso, na morte das árvores. Para mim, elas sempre estavam lá, como parte de tudo, como parte do mundo. Não morriam, apenas existiam. Ora, quem diria? É mesmo. Arvores podem morrer.

- Como é morrer?

- Não deve ser o mesmo para todos – disse Estevão depois de hesitar um pouco, como se decidisse se devia comentar sobre isso comigo – Espero que seja diferente para você.

- Por que? – continuei inocentemente.

- Vi a terra se abrindo e o céu em chamas - diz seu amigo sem corpo - Vi o fim do mundo e o precipício, pessoas que se foram e as que nunca irão. Os ossos acinzentados formando paredes, os corpos amontoados formando cidades. Tudo muito ruim. Por isso me segurei à grama. Não sei porque, mas a grama conseguiu resistir, me ancorou aqui.

- Não havia plantas lá nesse lugar?

- Não - disse o desencarnado - Acho que animais e plantas morrem de forma diferente.

Eu ouvi e tentei entender, mas como disse antes, havia coisas que iam além da minha compreensão naquele momento e até hoje, por bem dizer.

- Imagino que seu pai se arrependeu do que fez pra você, se matando depois...

- Meu pai?

- É. Ele se enforcou depois de te matar.

- Quem te disse isso?

- Meu avô.

- Eu fugi de casa quando vi meu pai enforcado – disse Estevão em uma voz que parecia vir de algum lugar abaixo dele – Eu fugi de casa para não ser morto também, mas tropecei aqui no gramado, não consegui ser rápido o suficiente.

- Então... – tentei elaborar, piscando algumas vezes, tentando dar reboot no cérebro – Não foi seu pai que te matou?

- Não.

- Quem foi então?

- Ele.

Eu olhei na direção do portão e fui pego de surpresa pela segunda vez naquela noite. Lá estava meu avô no portão, o fechando com todo cuidado para não fazer barulho, seu rosto duro como uma escultura em pedra cinza. Ele tinha me seguido, o que me fez sentir como se tivesse engolido uma grande colherada de culpa e ela tivesse entalado na minha garganta. Eu provavelmente ia ser repreendido. E então a ficha caiu.

- Você matou o Estevão? – disse eu, sem pensar – Por que?

- Ele está aqui? – foi o que respondeu meu avô, ignorando minha pergunta.

            Eu me virei na direção de meu amigo por puro reflexo, só que ele não estava mais lá. Ia dizer a meu avô que não, mas ao me voltar, vi que meu amigo já estava atrás dele. O quintal estremeceu e o chão cedeu bem embaixo de meu avô. Ele foi engolido e eu fiquei sem entender nada, já que tudo aconteceu muito rápido. Eu me levantei e fui até onde meu avô tinha sido tragado pela terra, que não aparentava ter feito nada, parecia tranquila e inocente.

Onde meu avô tinha ido parar?

Que mágica fora aquela?

- Estevão? – chamei.

            Talvez meu amigo tivesse uma resposta, mas ele também não estava mais lá. Voltei pra casar e depois de pensar muito, acabei caindo no sono. Ao acordar de manhã, continuava sem entender bem o que tinha acontecido e resolvi não falar nada do que testemunhara para meu pai ou quem quer fosse, já que numa coisa meu avô tinha razão: não devia chamar mais atenção sobre mim.

 

7

            Nunca mais vi Estevão e comecei a evitar o numero 405 da rua Florinau. Comecei a ir para escola fazendo um trajeto mais longo, tomando o outro lado do quarteirão.

Falando em escola, Geraldo nunca mais me aporrinhou. Até me evitava e ficou de bico calado sobre o que viu naquele dia em que podia ter mudado meu rosto de esquadro. Alguns alunos notaram quase que por instinto e se aproximaram de mim, mas sem nunca perguntar o porquê das coisas serem como são. O fato é que aos poucos – aos pouquinhos mesmo- meu círculo de conhecidos foi aumentando e hoje posso dizer que tenho alguns bons e sinceros amigos.

Para o resto da cidade, meu avô desaparecera misteriosamente e tomou o lugar da morte de Estevão e do pai no imaginário coletivo. A polícia desconfiou de meu pai, mas como nenhuma prova do que tinha acontecido surgiu, ficou elas por elas e em nome da boa vizinhança, a coisa foi deixada para trás.

            Consegui chegar à adolescência sem muitos revezes, mas volta e meia penso em Estevão e em nossa última conversa e ainda me questiono o que seria morrer e porque para ele tinha sido um pesadelo ao invés de uma passagem para a paz.       

 

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