ANTES DE DORMIR - MORITURI

 O céu estrelado.

 O novato contemplou o céu e se sentiu parte dele.

 Ele adotara o corte franciscano e usava bata de padre com um pequenino crucifixo plano de madeira para a ocasião. Esperava estar fazendo a coisa certa.

 Um cão late e o distrai.

 A atenção do novato voltou para a construção a sua frente, o único naquele lugar deserto, no meio do campo.

 A construção tinha linhas simples e parecia uma casa de dois andares, sem preocupações estéticas. Ninguém diria que aquele era o templo da Ordem a não ser por alguns holofotes em pontos estratégico e o pátio, com todos aqueles agentes vestidos em uniformes negros e cães de guarda.

 Um dos quais rosnava agora para ele por detrás da grade, contido pela coleira na mão do segurança de quepe.

 O novato olha para trás de si a tempo de ver o micro-ônibus que o trouxera passar pela cancela e sumir.

 Um sujeito de batina sai apressado do prédio da Ordem e vem em sua direção,

reduzindo o passo á medida que se aproxima. O homem pára no portão que vai sendo aberto pelo segurança de quepe.

- Eu sou o Monsenhor – diz o homem, estendendo a mão.

 O novato apertou a mão idosa e vincada dele. Era um homem de aproximadamente 50 anos, cabelos reco, expressão séria, mas demonstrava uma tentativa de parecer amistoso, movendo-se para um lado. E com um movimento para o lado, fitou o novato de cima a baixo, parando em seus pés.

 O novato olhou para seus próprios pés também, sem entender direito porque até que percebeu que ainda estava na calçada. Sorrindo como um tolo, eu um passo a frente e entrou.

 O Monsenhor sorriu também. Ele usava uma batina negra onde resplandecia um imenso crucifixo dourado com a imagem de Cristo no meio.

- Bem-vindo a Ordem – disse o Monsenhor.

O novato deu mais alguns passos à frente e parou. O portão foi fechado com um clangor. O barulho fez o novato pensar que o céu ia ficar do lado de fora, o que era uma bobagem, já que o pátio não era coberto. Ainda assim...

O monsenhor estende sua mão novamente, mas dessa vez, segura o crucifixo de madeira do novato e o observa com curiosidade.

- Bonito crucifixo, mas não é um dos nossos.

 Sem esperar resposta, o Monsenhor vira-se e caminha em direção do prédio.

- Agora que você está aqui, providenciarei o que você necessita.

 O novato trata de segui-lo em silêncio.

 Um dos cachorros observa indiferente os dois entrarem no prédio.

 Após a passagem do novato, um homem vestido de padre mas com o quepe dos guardas lá de fora fecha a porta de acesso do prédio com várias travas de segurança.

 O novato não gosta da sensação que aquele lugar dá, com todo esse aspecto claustrofóbico, mas continua a seguir o monsenhor cada vez mais para dentro do complexo, tentando acompanhar tudo que o outro fala. Talvez em suas palavras estivesse a salvação.

- Como foi o treinamento?

- Um tanto assustador – respondeu o novato, a voz sem peso.

 Eles passam para um corredor mais claro.

- Viver é assustador – comenta o monsenhor, de uma maneira casual - Nossa Ordem é responsável por torná-la um pouco mais tolerável.

Os dois seguem até uma escadaria que aponta para o subsolo.

- Quantos haviam no seu grupo?- continua o Monsenhor.

- Éramos 300 no começo.

- E só sobrou você?

- É.

- Uma pena – lamentou o homem, enquanto entravam num aposento de paredes brancas, onde o barulho de máquinas zumbia - Acreditar deveria ser o primeiro princípio da fé.

 Andam por pessoas de chaleco com computadores, mapas e outros apetrechos. Uma máquina no fundo, rente à parede produz crucifixos do tipo que o Monsenhor usava.

 Há uma caixa com crucifixos dourados numa mesa.

 Um rapaz retira os crucifixos e acompanha o novato com o olhar.

 Antes de saírem do aposento, o novato olha de novo para o rapaz e este pisca para ele.

 O Monsenhor começa a descer uma escada, seguido pelo novato.

- Muitos relegaram a igreja após a iniciação – comenta o jovem.

- Eu sei.

 Eles descem vários vãos de escada. A cada passo dado, a intensidade da luz mais diminui.

- Você acha que essa Ordem é realmente necessária – indaga o jovem.

 Chegam a outra porta com um segurança.

- Essa Ordem é a mãe da Igreja – responde o Monsenhor.

 Entram para uma passagem onde há outra porta.

 - Sem ela, não haveria nada, nem mesmo o mundo civilizado – prossegue o Monsenhor - Não seriamos mais do que nômades nos desertos de Jerusálem.

 O monsenhor bate na segunda porta.

- Mas, pelo que foi dito, é estranho. O mundo não perdeu mais assim?

 Outro guarda abre, este com um pastor alemão.

- Por quanto tempo você acha que a religião que criamos sobreviveria ante isso? – responde o Monsenhor, fazendo um gesto para o que há a frente.

 Entram num corredor escuro, a luz por trás deles, mais forte, lança longas sombras no chão. Caminham devagar.

 - Olhe essas pobres criaturas – fala o Monsenhor, enquanto caminha, apontando para celas escuras onde criaturas disformes grunhem - Religiões foram criadas para elas. Religiões que tratamos de reduzir a mera mitologia.

 Numa das celas, o novato reconhece uma criatura um pouco maior que um homem, com a cabeça em forma de touro, bufando e babando, alheio a eles. Ele desviou o olhar do minotauro.

- Mas por quê? – continuou a questionar.

- Concorrência – respondeu o Monsenhor – Podemos tolerá-los por algum tempo mas não permitir que venham a nos incomodar. A concorrência é o caos.

 Em outra cela, o novato vê uma mulher indiana com vários braços.

 - É para isso que a Ordem existe: para eliminar o caos.

 Mais adiante vê um garoto preto com uma perna só.

- É claro que deixamos um leve traço deles - continua o Monsenhor - Temos que deixar o homem pensar que há possibilidades.

 O novato pára na frente de um tanque de vidro onde há uma sereia com os lábios costurados.

 - Temos que alimentar a vontade do homem em acreditar – prossegue o Monsenhor, parando para observar a admiração do jovem, que se aproxima do tanque dela - Foi engraçado quando soltamos um em Roswell e outro em Varginha...

 A sereia parece fazer um esforço para pronunciar algum som. O novato fica aflito com aquele apelo mudo no olhar dela. Ele estende a mão. Ela também.

- O Chupa-Cabras então, nem se fala...

 Os dois tocam a superfície do vidro. Trocam um olhar. A porta por onde vieram é aberta e seu som e sua luz desviam a atenção do novato.

A mão firme do Monsenhor pousa no braço do novato.

- Venha. Não perca seu tempo com eles.

 O monsenhor volta a andar e o novato novamente o segue. A Iara fica desesperada, agitando-se aflita na água, seu grito calado preso na garganta e incapaz de ser levado aos lábios costurados.

 - Eles são apenas história agora e toda história depende de quem a conta.

 O novato se afasta mas dá uma última olhada na Iara e na porta lá atrás, sendo fechada agora.

 - No curso, eu me perguntava por que não matá-los de uma vez?

- Pense neles como ferramentas que podemos usar em um momento oportuno – responde o homem - Melhor ter o que barganhar do que ter as mãos vazias.

 Eles chegam a um grande portão e param. O Monsenhor encara o novato, amistoso.

 - Gostaria que mais tivessem vindo e não apenas você.

 O novato o olha sem entender.

 - Vai ser uma guerra coordenar o fim de todas outras religiões.

- Como?

 O Monsenhor dá um passo a frente e começa a abrir o portão.

- Chegamos a um novo século – responde o Monsenhor - Está na hora de redirecionar o mundo e decidimos dar um basta nas outras religiões.

- Quer dizer...

- Assim como fizemos com a religião em volta daquelas criaturas que transformamos em crença popular, vamos voltar a comandar o destino dos homens através de uma só religião.

 A luz do interior do aposento acerta o novato e o Monsenhor.

 - E como isso será possível?- questiona mais uma vez o jovem.

- Bom, algumas delas, nós mesmos criamos e mantemos, mas contra as outras, usaremos uma arma que já vínhamos anunciando a algum tempo.

 A porta se encontra agora totalmente aberta. Há uma grande cruz com um homem crucificado no meio da sala. O novato, uns dois passos atrás do monsenhor, olha atônito.

 O Monsenhor observa sem se incomodar.

 - Usaremos a segunda vinda, é claro.

 Dois seguranças aparecem ao lado do novato e o agarram, o forçando a se ajoelhar. O monsenhor continua contemplando o homem crucificado sem se incomodar.

 - O que é isso? – grita o novato numa voz um pouco mais aguda do que apenas de surpresa.

 Um terceiro guarda aparece por trás do novato e ergue um facão, descendo com destreza e cortando-lhe a bata.

 Asas enormes se esticam por trás das costas do jovem.

 O Monsenhor assovia, distraído.

 As mãos do homem crucificado se crispam.

 O novato grita quando o facão desce mais uma vez contra ele, cortando-lhe as asas dessa vez. Em choque, ele é arrastado para a escuridão de um corredor.

- Cela 507, rapazes – diz o Monsenhor, inexpressivo.

 Uma das penas do jovem flutua no ar por uns instantes antes de finalmente morrer no chão. Um homem com jaleco branco e um relatório na mão se aproxima correndo e pisa nela.

- Senhor, começou a chover forte...

O Monsenhor, calmo, se vira e apenas sorri.

- Já esperávamos por isso.

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