MEU
1
O corredor do prédio falava.
Era a impressão que dava, já que o
que quer que estivesse passando ali, fazendo ruídos que lembravam vozes, não
tinha substância. O corredor vazio absorvia aqueles sons no branco de suas
paredes.
O que quer que fosse, seguia com
calma, dobrando a direita e indo até a última porta a esquerda. O que quer que
fosse, entrou.
O interior do apartamento era simples.
De solteiro, podia–se perceber pelas camisas espalhadas em cima de três das
quatro cadeiras em volta da mesa na sala. Havia dois quadros genéricos na
parede e uns pratos decorativos num móvel oposto à grande janela panorâmica.
Alguém cantava no banheiro,
competindo com o barulho da ducha. A porta entreaberta rangeu ao deslocamento
do que poderia ser um vento encanado, senão estivessem fechadas as janelas. Ou
seja, a porta moveu sem porquê. O burburinho quase humano que antes ocupara o
corredor soou ali, aumentando um pouco, quase sobrepujando o som da ducha e da
cantoria. Enzo sentiu um calafrio. Abriu a porta do boxe e olhou para fora. O
burburinho cessa sem que ele chegue a percebê-lo racionalmente. Não há nada,
nem ninguém ali, só a porta um pouco mais aberta do que estivera antes. Enzo
estranha, mas deixa pra lá e ligou o chuveiro para terminar seu banho para sair.
Mas não voltou a cantar.
Ele desliga a ducha e sai do boxe, se
enxuga e enrola a toalha na cintura, observando o ambiente em busca de moscas.
Podia ser o motivo do som que o inquietou. Mas não havia nada ali. De qualquer
forma, o arrepio que percorrera sua espinha o deixou em estado de alerta. Já
morava só há um bom tempo e jamais sentira algo assim.
Parou em frente ao espelho, tocou o
queixo para ver se devia fazer a barba. Não queria estragar o encontro de hoje espetando
o rosto de Ana. Concluiu que não precisava. Seus pêlos demoravam a crescer e
talvez até por isso aparentasse menos do que a idade que tinha. Olhou para seu
torso e concluiu que se malhasse um pouco mais, poderia facilmente passar por
alguém mais novo do que trinta e quatro.
O telefone começa a tocar no quarto.
Tinha quase certeza que devia ser Ana. Há bastante tempo que rolava um clima
entre os dois e finalmente aparecera a oportunidade para jantarem. Mas eram
ambos tímidos e talvez a coisa não funcionasse tão bem. Ele já se recuperara,
mas não saíra com ninguém desde que Beatriz se fora. Enquanto se dirigia ao
quarto para atender, pensou em Ana e lembrou que ela hoje ajudaria Régis a se
mudar. Podia estar cansada. Será que ia desistir?
–
Alô? Ana? Como foi a
mudança? Tá.Você já vai direto prá lá? Tá. Daqui a quinze minutos saio de casa.
Ele desliga. Há uma leve preocupação
em seu rosto. Desconfiava que Ana tinha uma queda por Régis, mas não devia ser
problema, já que desconfiava que ele não poderia satisfazê-la, de acordo com os comentários
que ouvia.
Enzo saiu de seu quarto e voltou ao
banheiro, pensando em escovar os dentes. Estancou de repente antes de entrar.
Percebeu, sentiu, mais do que qualquer outra coisa. Os olhos viam, mas a razão
não vinha. O espelho. Quebrado. Não fazia sentido. Não teve antecipação,
barulho, vento, nada. Mas ali estava, o reflexo voltando como uma colcha de
retalhos.
À princípio, Enzo não entendeu e nem
quis entender o que era aquilo. Deu um passo para trás e vasculhou o corredor.
Ninguém. Não ouviu nenhum ruído. O silêncio era total. Ele volta para o
interior do banheiro e encara aquela teia de vidro partido. Leva algum tempo
para digerir aquela imagem e perceber um detalhe logo ali à sua frente, naquele
emaranhado de linhas estilhaçadas. Quase que sutilmente, aquelas formas
dilaceradas sugeriam a palavra “NÃO”. Não há um caco caído na superfície da pia
logo abaixo do espelho. Tudo na superfície vítrea se junta para passar aquela
mensagem, nítida a partir do momento que você nota que ela está ali.
O arrepio de antes, Enzo volta a
sentir agora, só que dessa vez, a sensação não se dispersa e fica, fria em sua
pele.
Arranjando coragem da noção de que é
adulto e que tem que achar uma explicação lógica para quilo, Enzo dá um passo
para frente e toca o espelho com cuidado, como quem toca algo que pode morder.
Sente a aspereza dos pedaços criados, olha o reflexo de seu rosto entrecortado
de perto, busca alguma coisa que pode ter caído ou se jogado contra a
superfície, um pássaro no chão, um inseto mais robusto que pudesse ter entrado
e se lançado numa missão suicida. O chão do banheiro está limpo. Aquilo tudo
era muito bizarro, bizarro como neve no verão do Rio
Enzo recua e deixa o banheiro de
costas, ainda mirando o espelho como se este pudesse deixar a parede e vir
atrás dele querendo satisfação para todas aquelas rachaduras em seu corpo. Já
com um pé no corredor, olha para os lados antes de sair por completo, achando
que ainda podia haver alguém por perto, prestes a ataca-lo.
Não havia ninguém, o apartamento
ainda estava em silêncio, mas como era óbvio e notório, algo muito errado
estava acontecendo ali. Mais cedo, na antecipação de sair com
Ana, Enzo estivera sentindo um certo desconforto com o fato de que ia sair com
uma mulher depois de tanto tempo, mas era apenas aquela sensação de friozinhho
gostoso na barriga e que às vezes provoca um pouco de mal estar.
Mas isso agora era diferente, bem
diferente.
Decidiu se armar de coragem e olhar
os cômodos. Novamente se viu como um adulto, tinha que tomar uma atitude de
adulto. Não era mais a criança que vivia
pedindo para dormir com a luz acesa. Só que a lógica indicava que talvez alguém
tivesse entrado no apartamento, talvez um ladrão. Encheu o peito e tratou de procurar
algo ou alguém que estivesse por trás do ocorrido no banheiro. Nem sabia se
preferia achar algo ou não. De qualquer forma, não achou nada (o que de certa
forma, era até um alívio).
Voltou ao banheiro com algumas folhas
de jornal, observa o espelho por alguns instantes antes de remove-lo e
embrulha-lo, o levando para área de serviço e o depositando perto do cesto de
lixo. Suspira, pensando que ia se atrasar para encontrar Ana. Achou que não
devia falar sobre esse incidente com ela.
Ana.
Não podia esquecer dela.
Não podia perder essa chance de estar
com ela.
Procurando se concentrar, acalmar sua
agitação, recuperar as rédeas da normalidade, ele vai até o quarto e termina de
se vestir. Pensar em Ana ajudava, mas não conseguiu evitar de dar umas espiadas
nervosas em todas direções e de parar para ver se escutava algo fora do comum.
Nada. Nenhum som.
Tudo em paz. Sorriu. E então, naquele mesmo
instante, ouviu um estilhaçar agudo que o faz dar um pulo assustado para trás. Correu
para sala. Sua tevê. A tela escura se espatifara, mas, assim como o espelho, de
uma forma que os estilhaços formassem novamente a palavra “NÃO”.
Assustado, Enzo olha pra janela,
procurando novamente a possibilidade de um pássaro kamikaze, mas está tudo
fechado.
Novamente: não há nada, nem ninguém
ali.
Novamente: nada disso fazia sentido.
Novamente: estava arrepiado até o
último pelo do dedo do pé.
Decidiu chamar o vizinho ou o zelador
ou o síndico. Foda-se que era adulto. Era hora de tomar medidas drásticas. Ia
se por em movimento quando percebeu que, dessa vez, o silêncio no interior do
apartamento era sepulcral, não havia nenhum outro som vindo de fora. Não havia
barulho de rua, de gente no apartamento do lado, de baixo ou de cima. Parecia
que todas as coisas do mundo haviam cessado de existir.
Ele se segurou n lugar, prestando
atenção no ar parado, na imobilidade das coisas a sua volta, mas com os nervos
tão a flor da pele que quando o telefone tocou e trouxe vida ao silêncio, ele
gritou e quase sentiu seu coração parar.
Ficou olhando o aparelho tocar por
alguns instantes antes de se habilitar a pegá-lo. Racionalizou que quem quer
que fosse era bem vindo. Se fosse um amigo, ia mandar vir correndo. Mesmo que
fosse sua mãe, o rapaz que entrega pizzas, o vendedor de telemarketing.
Precisava de ajuda agora.
Talvez fosse Ana, pensou ao atender e
como em resposta, um guincho estridente soou do aparelho, agredindo seus
tímpanos. O som era como um grito agudo indistinto tão forte que Enzo achou que
podia enlouquecer se o ouvisse por mais alguns segundos. Ele bateu o fone no
gancho e recuou. O aparelho não encaixou no lugar certo e não interrompeu a
chamada do inferno, o grito dilacerante se estendendo e invadindo a sala e
fazendo Enzo encostar na parede, mortificado.
– Pára! – gritou.
O ruído cessa.
Enzo precisou de instantes para
perceber que tinha sido atendido. Procurou respirar como gente e por os
pensamentos no lugar. Estava decidido. Não ia ficar nem mais um minuto no
apartamento. Sem hesitar, segue para a porta, nervoso, sem querer olhar para
trás. Ao tentar abri-la, nada acontece. Por mais esforço que faça, a maçaneta
não se move, a porta continua trancada. Ele dá um passo para trás, pronto para
arrombar a porta com uma pesada quando vê uma falha surgir do nada no canto
esquerdo da mesma. Aos poucos, uma linha vai surgindo como se alguém usasse um
canivete para escrever na madeira. Uma linha após outra vai formando letras,
esfiapando a superfície em lascas e farpas, produzindo um som contínuo seco e
grave, às vezes precedidos de estalos.
Enzo
fica paralisado vendo a imagem se formar. Era aterrador e ao mesmo tempo
fascinante, como ver um puta truque de mágica acontecer na frente de seus olhos.
Mal acreditou quando o texto finalmente se formou.
"VOCÊ É MEU"
Enzo leu, não entendeu. A porta
continuou estalando por alguns instantes até se silenciar de vez, como que
passando a bola para Enzo. Como em busca de uma explicação para aquela frase,
ele se virou para olhar a sala as suas costas. Percebeu algo que não estivera
ali antes. Ficara vendo tevê a tarde inteira, devorando uma série que lhe
indicaram, e com certeza aquilo não estava ali antes.
Na mesinha de centro, um porta
retrato. Nele, Enzo abraçado a uma mulher.
- Beatriz – sussurrou Enzo.
Ele vai até o retrato e o pega com
cuidado, um cuidado que tem mais significado do que o próprio ato poderia
denunciar. Engasga, querendo achar
palavras. Ergue o rosto.
– Eu tinha guardado isso! – diz, a
voz saindo com uma carga de fragilidade.
Ele coloca o retrato de novo na
mesinha e senta-se, pesaroso, matutando algo no fundo da mente. Antes esse
porta retrato ficava ali. Nem era o melhor lugar para ele, mas ele mantinha
para lembrar dela, pra ficar a mão, para remoer tudo que acontecera.
– Guardei porque esse tempo já passou
– começa a falar numa voz rouca que aos poucos vai adquirindo mais vida -
Demorou e ainda dói, mas já passou. Acho que você teria alguma razão de me
perturbar se não pudesse perceber o quanto sofri. Você não entende que foi como se eu tivesse
ido junto?
Um vento suave sopra no interior do
apartamento, mexendo os cabelos dele. Ele nem questiona o fato das janelas
ainda estarem ainda fechadas.
- Beatriz, é você?
O burburinho que tinha se feito
presente antes no corredor e no banheiro, volta por um breve instante.
– Se é você me assombrando, não viu
quantas noites fiquei sem dormir, relembrando cada momento? Mesmo que não tenha
percebido isso, ainda assim não é justo. Eu quero voltar a viver.
O burburinho se transforma num gemido
e a temperatura da sala parece esfriar.
– É você, não é? Não sou eu ficando
maluco, não é? Ou sou eu, pirando de vez?
Ele olha para o alto. A brisa antes
suave, parece intensificar.
– Se é você mesmo, vamos resolver
logo isso.
Ele se ergue e se dirige a toda a
sala.
– Eu te amei, amei muito. De certa
forma, ainda amo. Tudo que guardo são lembranças boas. Só que você não está
mais aqui e estou me sentindo muito só. Toda vez que eu entro por aquela porta,
eu sinto sombras no apartamento. Mesmo que eu ligue todas as luzes, ainda assim
eu sinto sombras. Porque elas estão aqui.
Ele bate no próprio peito.
– A Ana é uma pessoa ótima. Se as
circunstâncias fossem outras, talvez
vocês até se tornassem amigas. E eu só vou encontrá-la para um jantar,
só isso e mais nada.
Ruídos de coisas se quebrando começam
a tomar conta do apartamento, como se houvesse um animal feroz ali dentro. Enzo
pode ver o sofá criar um talho por onde o estofo ameaçou saltar.
Novamente o som de algo sendo riscado
surgiu, mas dessa vez não era na porta. TRAIDOR. Essa foi a palavra que
apareceu cravada dessa vez, explodindo na parede, todas letras de uma vez só.
– Eu não estou te traindo! Pára com
isso! Você não pode nem sentir ciúmes! Você está morta!
As luzes começam a piscar e falhar.
Os pratos decorativos começaram a voar, indo se espatifar na parede próximo a
ele, que se agacha.
– Você está morta, entendeu? Nosso
momento já passou e eu tenho que voltar a viver!
Livros voam em sua direção. O sofá se
mexe, produzindo lanhos no chão e o jogando para frente, para depois pular e cair
por cima dele. Quadros e cadeiras fazem o mesmo, vindo na direção do homem
caído. Uma estatueta acerta sua testa. Algo em forma de névoa se materializa no
meio da sala e solta um grito lacinante de dor, que ecoa pelas paredes e sacode
os alicerces do prédio. Os móveis entulhados só permitem ver a mão de Enzo no
meio daquele caos. A coisa enevoada se desfaz e nada se move no apartamento.
Até que o telefone começa a tocar
insistentemente.
A mão de Enzo se mexe.
Ruído. Enzo se recobra e vai se
erguendo, se pondo de joelho. Sua testa está machucada, um filete de sangue
escorre preguiçoso ali, mas não é nada tão preocupante. Nunca fora a intenção
de Beatriz. Ela não queria machucar Enzo, pelo jeito. Não muito,pelo menos.
O telefone continua tocando, mas, sem
saber porque, mesmo ainda tonto e de joelhos, Enzo olha para a porta da sala.
Talvez fosse a sensação de que tinha que fugir dali. Mas ele fica atônito ao
perceber que não há mais nenhuma palavra entalhada nela. Ele se vira para
parede onde antes havia TRAIDOR. Nada lá também. Se não fosse a confusão dos
móveis, era como se nada tivesse acontecido. Mas só ao se por de pé é que nota
que os móveis estão no lugar. A sala está do mesmo jeito que estivera durante o
dia. Nada havia mudado. Ele se firma no chão, apruma o corpo e começa a querer
entender o que acontecera. Silêncio. O apartamento estava novamente em total
silêncio, parado, estático. Sala, quarto, banheiro. Nada se move. As luzes,
normais. Enzo fica em pé no meio da sala, ainda aguardando, escutando. Nada
acontece. Mas os sons da rua estão do jeitoque deviam estar. Lá fora, o mundo
parecia ter voltado aos trilhos.
Enzo arruma sua roupa, endireita as
calças e a camisa, segue até a porta ainda desconfiado e experimenta a
maçaneta. Esta cede. Ele vai abrindo a porta, espia o lado de fora, Põe um pé
no corredor. Quando vê que nada está acontecendo, fica mais confiante e se
prepara para sair quando o telefone, que parara por alguns instantes, volta a
tocar e o assusta. Apreensivo, faz uma careta de desagrado. Hesita. Acaba
voltando e atendendo.
A porta lentamente se fecha sozinha
atrás dele.
– Alô? Sim, é ele! O quê?! A Ana o
quê?
Enzo observa as luzes da ambulância,
dos carros de polícia. Quem diria? Fora capaz de chegar antes da ambulância.
Coisas de uma cidade sem rumo. A noite deixava tudo mais horrível, as luzes
artificiais produzindo contrastes e contornos que não revelavam detalhes, mas
que se regozijavam com o que permitia ser visto.
Ana sofrera um acidente de carro. O
motorista do Uber perdeu os sentidos e a direção, fez o carro derrapar na pista
e virar, batendo com a traseira num poste. Ele mesmo, nada sofreu. Já Ana...
Ela
devia estar seguindo para onde iam se encontrar. Num mundo perfeito, a essa
hora, os dois estariam trocando sorrisos e doses de vinho. Enzo estaria ouvindo
música suave ao invés de buzinas e sirenes. Tudo a sua frente parecia um filme sem
sentido, que extraia suas forças, minava seus sentidos. Mas nem tanto. Pois
pode perceber algo pequeno no chão. Algo que não deveria estar ali. Algo que
reconheceu no mesmo instante. Aproveitou que os policiais estavam entretidos,
se aproximou mias um pouco, agachou-se e apanhou o pingente favorito de Ana.
Ela nunca o tirava e tinha a mania de sempre tocá-lo enquanto conversava, o que
era, de certa forma, um de seus maneirismos mais charmosos. Ele conhecia a
história daquele pingente, sabia o que significava para ela. Se ficasse ali, ia
sumir, ia se perder. Tratou de coloca-lo no bolso. Queria ter algo para lembrar
da bela mulher que ela fora antes desse acidente que tinha arrancado metade de
seu rosto fora.
Enzo volta para casa e se joga sem
forças no sofá.
Pensou em Ana.
Pensou sobre Beatriz.
Teria sido ela? O espírito de sua
falecida esposa poderia ter deixado o apartamento e provocado o acidente de
Ana. Ou fora só um acaso cruel?
O que segurava Beatriz ali? Era só a
força de um amor doentio, o mesmo que fizera com que brigassem, com que ele
saísse para beber, o mesmo que a fez exagerar nos calmantes e morrer ali mesmo,
naquele apartamento?
Quantas vezes pensou em se mudar, só
não levando a ideia a frente por uma questão de orçamento. O apartamento já era
seu e custara para pagar. Claro que o bairro antes era melhor. A área tinha
desvalorizado nos últimos dez anos devido ao fechamento de um parque de
diversões que havia perto, atraindo bastante gente para agitar o comércio local.
Beatriz. Ana.
Catou o pingente de Ana do bolso e o
trouxe para frente de seus olhos. Ficou observando, analisando os detalhes do
objeto, querendo ver Ana através dele. E talvez seja isso que traz de volta
aquela sensação ruim que tivera quando tomou banho mais cedo, quando viu a
porta e a parede criarem mensagens do nada. Beatriz estava ali de novo, na
sala. Ele colocou o pingente com cuidado na mesinha de centro e se levantou.
- Foi você? – gritou – Foi você que
provocou o acidente de Ana?
Como em resposta, o aparelho de som
liga sozinho e uma música romântica começa a tocar.
- Beatriz?
Nada
além da música.
Enzo
ainda esperou mais alguns instantes e como não houve nenhuma reação, nenhum
movimento inusitado na sala, inclinou-se para pegar o pingente e guardar, mas
este se deslocou, indo parar no canto oposto da mesinha. Enzo deu um passo e se
inclinou ainda mais, determinado a guardar o pequeno pendente, mas dessa vez, a
joia foi arremessada longe, indo bater na parede e caindo morta no chão.
Enzo
não quis desistir e já ia dar mais um passo quando o ar tremeu e próximo ao
objeto caído, algo se formou, um vulto enevoado, um silhueta com pouca
substância e contornos humanos. Enzo congelou onde estava. Em sua mente, buscou
algo de feminino naquilo, algo que indicasse que aquela coisa tivesse mesmo
algo de sua falecida esposa. Mas a coisa era tão irreal, tão fora desse mundo,
que tudo que ele pode fazer foi tentar preservar um pouco de sanidade para o
caso de sobreviver tal experiência. A criatura sem massa se abaixou para
recolher o pingente e isso provocou um pouco de reação no homem aturdido, que
esboçou um movimento mínimo, mas que foi o suficiente para coisa se virar para
ele e algo acontecer. Enzo começou a ser arrastado para trás. Ele quase que
instintivamente colocou uma perna adiante e outro para trás buscando se
equilibrar jogando o peso do corpo para
frente, mas de nada adiantou. Ele continuou a ser puxado para trás, de uma
forma tão irracional e sem sentido que fez o pobre homem ter vontade de berrar
como um louco. Ele tentou resistir, mas o movimento contrário só cessou quando
ele foi jogado de costas contra a parede. Como se não bastasse ter sido
arrastado para trás, agora estava sendo puxado para cima. Seu corpo desafiava a
gravidade, ficando estatelado no meio da parede, grudado como um inseto na
coleção de um entomologista.
Ele faz um esforço e tenta esticar a
mão na direção da forma, com esperança de que aquela loucura parasse, como que
achando que se aquela coisa enevoada tinha a ver com algum sentimento gerado
por amor ou atração, faria cessar seu tormento. Mas o que aconteceu foi
diferente de qualquer coisa que ele poderia esperar.
Sua mão esticada curvou, os cinco
dedos sendo jogados para trás, rompendo tecido e quebrando ossos, rasgando onde
a pele não aguentou.
O grito de Enzo tomou conta do
apartamento, mas não vazou para além da sala. O seu inferno estava contido ali
naquelas paredes, seus vizinhos alheios ao seu sofrimento. Sua dor foi além de
qualquer coisa que já havia vivenciado. E com isso, a vida parou de fazer sentido
e de ter substância.
Enzo só despertou no dia seguinte, a
manhã cinzenta já pela metade. Sua mão era dor e agonia, uma imagem que Enzo
não conseguia ter coragem de olhar.
Ele virou a cabeça para perceber o
que no fundo já sentia: o apartamento estava destruído.
Enzo ainda precisou de uma hora para
vencer a dor e se levantar. Ele seguiu até a porta, precisava ir a um hospital
com urgência, reconstruir a mão, se é que um dia ia querer voltar a olhar
aquela parte do corpo.
Ele usou a mão boa.
Nada.
A porta não cedeu.
Ele tentou a chave. Virou para um
lado, para o outro.
Nada.
Estava preso.
Atrás dele, a forma enevoada foi se
formando e com esforço, sussurrou.
- Meu.
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