ANTES DE DORMIR - VÃO-SE OS ANÉIS...

 Ela e o filho de sete anos entraram na caverna escura.

Iluminando o ambiente, apenas tochas nas paredes e nada mais. O aspecto rude e sombrio era maior pelo aspecto de sujeira. Se aquilo era uma habitação, merecia ao menos uma vassoura de vez em quando. Josiane deve que tomar cuidado para não sujar o conjuntinho creme que estava usando. A decoração realmente deixava a desejar, se comparado ao conforto do apartamento em que viviam.

 Mais à frente, onde a cavidade de entrada dava abertura para uma espécie de sala vagamente circular, havia uma luminescência tosca criada por um fogo aceso abaixo de um caldeirão de um metro e meio de diâmetro.Nada mais típico. A tal Irene sabia mesmo como manter a “chama acesa”.

 Ao se aproximar, Josiane viu que o caldeirão estava cheio, com um líquido viscoso e fumegante. O mau cheiro empesteava o lugar, mas Josie sabia que para conseguir o que queria, alguns sacrifícios tinham que ser feitos. Olhou para o filho. Ele apertava sua mão com força e olhava assustado para todos os lados. Não era para menos. Aquele lugar era a materialização de todos pesadelos noturnos de todas crianças do mundo. É o pior: não tinha como ele fugir daquilo acordando no meio da noite. Era real e estava ali à sua frente.

Josie teve vontade de fugir. Não sabia se ia conseguir ir em frente com aquilo. Até que ponto estava disposta a ir para salvar as aparências?

Ouviu um ruído que a tirou dos pensamentos.

Gerson quase deu um pulo. A pobre criança tremia.

Josiane fixou a vista na direção do lugar de onde viera o ruído.

Havia uma mesa no fundo de uma depressão na rocha e acima dela, prateleiras rústicas, cheias de livros e frascos. À mesa, uma senhora idosa a fitava de volta, sentada imóvel, atenta como um gato na escuridão. Ela parecia estar avaliando as presas. A velha se chamava Irene, foi o que disseram, mas por Deus, ela merecia apenas o nome de bruxa, embora Josie não acreditasse muito em bruxas. Mas situações desesperadoras levavam a situações constrangedoras. E a senhora, agora se levantando e vindo até eles, estava bem arrumada, e não em andrajos como Josie esperava.

 – Dona Irene? – chamou, só para constar.

 A mulher idosa fez que sim, mas com o olhar fixo na criança que praticamente se escondera atrás da saia da mãe. Fez um gesto, oferecendo as cadeiras em frente à mesa, enquanto se encostava apoiada na mesma.

Mesmo com receio, Josie se aproxima com Gerson(relutante é claro) e se senta.

– É essa a cria? – pergunta a velha ainda perscrutando a criança.

– Meu filho Gerson, sim – respondeu Josie, a voz falhando por um instante, puxando o filho para seu colo, querendo protegê-lo.

 Irene se desencosta e dá a volta na mesa, se aproxima do garoto.

Ele está tão nervoso agora que seu rosto permanece encostado no colo da mãe, evitando ver.

Só que ela estende o dedo encarquilhado e o toca.

Ele estremece e aperta mais a mãe.

Josie tem que se segurar para não fugir dali correndo. Ela tinha que pensar no futuro. Sua família vinha em primeiro lugar. Não tinham mais a quem recorrer. O amanhã já estava aí, batendo na porta.

A mulher continua a deslizar sua mão no garoto, apalpando, aumentando a tensão dele que por um instante olha para mãe.

 Josie agora está se segurando para não chorar, mas o canto dos olhos brilham. Irene dá as costas aos dois e volta para o outro lado da mesa. Senta-se e faz um aceno de concordância para Josie, que mais aliviada, afrouxa a mão do filho e este aproveita para se desvencilhar dela, saindo de seu colo, olhando para os lados como um bichinho acuado.

Ele dá uns passos para trás e vê a velha passar um papel para sua mãe que se inclina para ler. A velha pega uma pena e aguarda enquanto Josie lê.

- Mãe – sussurra Gerson numa voz estrangulada.

Ela comprime os lábios mas continua a ler.

Gerson se afasta um pouco mais, para o outro extremo da caverna.

Há frascos maiores e empoeirados numa prateleira lateral, que parece cravada na rocha.

Ele engasga ao perceber que numa delas está um coração humano. Tinha apenas sete anos mas não era burro.

O que estavam fazendo ali? Sua mãe disse que era importante e que ia ajudá-los muito. Mas preferia não ter vindo. Só que não havia ninguém para ficar com ele. Pelo menos foi o que ela disse. Mas estava com medo. Não importa se estavam ali para fazer algo bom. A palavra “bom” naquele lugar não fazia sentido. O que quer que estivesse cozinhandoi no caldeirão fedia muito e o cheiro tomava conta do lugar. Lembrava vômito.

Um vento sopra sua blusa e ele se vira, vendo uma passagem escondida nas sombras, numa fenda na rocha.

Algo com uma respiração pesada parece observá-lo dali.

Gerson paralisa.

Parece demorar uma eternidade até que ele consiga desviar sua vista na direção de sua mãe para gritar por socorro.

Mas ao invés de gritar, ele apenas consegue ver sua mãe usando a pena para assinar o papel que acabara de ler.

A coisa que observava Gerson solta um grunhido e ele se vira, dando um grito abafado de susto.

Nada se mexe na escuridão, mas o menino arranja forças sabe Deus de onde para começar a recuar de costas, na direção das duas mulheres.

Bate em algo. Ao se virar, vê que bateu na própria mãe, parada atrás dele.

Aliviado, ele a abraça, sem perceber que ela o observa de uma maneira estranha, triste. Ela o abraça também, mas sua pele está fria, sem o calor que Gerson estava precisando para acalentá-lo.

Ele não vê Josie olhar para Irene e a velha faz que sim.

Josie simplesmente ergue o filho e o carrega até o caldeirão.

Ao perceber isso, Gerson começa a espernear e a gritar, mas nenhuma palavra sai de sua boca pois o medo o impede de pensar coerentemente para produzir sons com algum sentido. Ele só conseguia duvidar do que estava acontecendo ali. Nada daquilo era real. Tudo era um pesadelo e logo ele ia acordar em sua cama no seu quarto, podendo correr direto para o quarto dos pais à procura de proteção. Hoje procuraria o pai. Sua mãe tinha estado muito estranha naquele pesadelo.

Sem ter idéia do que corria na cabeça do filho, Josie o ergue um pouco mais ao parar em frente do caldeirão e gostaria de dizer que ela hesitou um instante, mas não foi o caso : ela o joga dentro do caldeirão escaldante.

Ele cai no  líquido borbulhante e tenta gritar, lutando com aquela gosma que entra em sua boca. Tenta mesmo pular por reflexo, usando o fundo ardente do caldeirão para dar impulso, mas Josie o segura pela cabeça, mergulhando-o, ela mesmo agora gritando pelo calor do caldo efervescente.

Os dois travam uma batalha assistida passivamente por Irene.

Josie retêm o filho ali, aos berros, até que Gerson cessa qualquer movimento.

Ela dá um passo cambaleante para trás, a respiração entrecortada.

Olha aparvalhada para o caldeirão.

Vê fiapos do cabelo do filho boiando na superfície esverdeada que agora tem traços de vermelho aqui e ali.

Suas mãos estão vermelhas também , mas das queimaduras. Elas ardem, mas para Josie isso é apenas um elemento a mais de sua dor.

A velha se aproxima e fita o interior do caldeirão. Ela pega uma colher de ferro enferrujado com um cabo de mais ou menos um metro e mexe o líquido. Josie olha para as próprias mãos, cobertas de bolhas.

Cai no chão, como um boneco sem forças, as mãos caídas ao lado, choramingando.

Sem se abalar, a velha experimenta o caldo.

Volta até uma prateleira e pega algo.

Josie soluça.

A velha apanha um copo longo e o enche com o líquido viscoso. Vai até Djose e passa o copo para ela. Josie retribui com um olhar suplicante. A velha ostenta seu olhar inabalável. Josie pega o copo e, chorando, com nojo e tendo que fazer muito esforço, bebe.

A velha pega o copo antes que Josie o derrube.

– Levante-se – ordena a Josie.

Josie olha para a mulher como que indicando que não tinha como. A passividade da outra faz com que ela acabe achando forças  e se erga.

– Vá embora agora – completa a velha - O que está feito, está feito.

 Josie começa a se mover com dificuldade. Tem que segurar a ânsia de jogar tudo para fora. Seu estômago revira, o gosto daquilo que bebera lhe provocando náuseas.

Dá alguns passos trôpegos mas aos poucos pega um mínimo de ritmo e consegue se dirigir com pernas trêmulas para a entrada da caverna.

Apóia a mão antes de sair do campo de visão da velha. Volta-se.

– Eu vou conseguir o que quero? – consegue arranhar as palavras.

– Se não conseguir – responde Irene -, ninguém poderá negar que você fez o máximo que pode por seus sonhos...

 Josie abaixa a cabeça, desconsolada. Fica estática por alguns instantes. Resigna-se, ergue a cabeça e deixa a caverna.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ANTES DE DORMIR - MORITURI

ANTES DE DORMIR

ANTES DE DORMIR - NÃO OLHE AGORA