ANTES DE DORMIR - VÃO-SE OS ANÉIS...
Ela e o filho de sete anos entraram na caverna escura.
Iluminando o ambiente, apenas tochas
nas paredes e nada mais. O aspecto rude e sombrio era maior pelo aspecto de
sujeira. Se aquilo era uma habitação, merecia ao menos uma vassoura de vez em
quando. Josiane deve que tomar cuidado para não sujar o conjuntinho creme que estava
usando. A decoração realmente deixava a desejar, se comparado ao conforto do
apartamento em que viviam.
Josie teve vontade de fugir. Não
sabia se ia conseguir ir em frente com aquilo. Até que ponto estava disposta a
ir para salvar as aparências?
Ouviu um ruído que a tirou dos
pensamentos.
Gerson quase deu um pulo. A pobre
criança tremia.
Josiane fixou a vista na direção do
lugar de onde viera o ruído.
Havia uma mesa no fundo de uma
depressão na rocha e acima dela, prateleiras rústicas, cheias de livros e
frascos. À mesa, uma senhora idosa a fitava de volta, sentada imóvel, atenta
como um gato na escuridão. Ela parecia estar avaliando as presas. A velha se
chamava Irene, foi o que disseram, mas por Deus, ela merecia apenas o nome de
bruxa, embora Josie não acreditasse muito em bruxas. Mas situações
desesperadoras levavam a situações constrangedoras. E a senhora, agora se
levantando e vindo até eles, estava bem arrumada, e não em andrajos como Josie
esperava.
Mesmo com receio, Josie se aproxima
com Gerson(relutante é claro) e se senta.
– É essa a cria? – pergunta a velha
ainda perscrutando a criança.
– Meu filho Gerson, sim – respondeu
Josie, a voz falhando por um instante, puxando o filho para seu colo, querendo
protegê-lo.
Ele está tão nervoso agora que seu
rosto permanece encostado no colo da mãe, evitando ver.
Só que ela estende o dedo
encarquilhado e o toca.
Ele estremece e aperta mais a mãe.
Josie tem que se segurar para não
fugir dali correndo. Ela tinha que pensar no futuro. Sua família vinha em
primeiro lugar. Não tinham mais a quem recorrer. O amanhã já estava aí, batendo
na porta.
A mulher continua a deslizar sua mão
no garoto, apalpando, aumentando a tensão dele que por um instante olha para
mãe.
Ele dá uns passos para trás e vê a
velha passar um papel para sua mãe que se inclina para ler. A velha pega uma
pena e aguarda enquanto Josie lê.
- Mãe – sussurra Gerson numa voz
estrangulada.
Ela comprime os lábios mas continua a
ler.
Gerson se afasta um pouco mais, para
o outro extremo da caverna.
Há frascos maiores e empoeirados numa
prateleira lateral, que parece cravada na rocha.
Ele engasga ao perceber que numa
delas está um coração humano. Tinha apenas sete anos mas não era burro.
O que estavam fazendo ali? Sua mãe
disse que era importante e que ia ajudá-los muito. Mas preferia não ter vindo.
Só que não havia ninguém para ficar com ele. Pelo menos foi o que ela disse.
Mas estava com medo. Não importa se estavam ali para fazer algo bom. A palavra
“bom” naquele lugar não fazia sentido. O que quer que estivesse cozinhandoi no
caldeirão fedia muito e o cheiro tomava conta do lugar. Lembrava vômito.
Um vento sopra sua blusa e ele se
vira, vendo uma passagem escondida nas sombras, numa fenda na rocha.
Algo com uma respiração pesada parece
observá-lo dali.
Gerson paralisa.
Parece demorar uma eternidade até que
ele consiga desviar sua vista na direção de sua mãe para gritar por socorro.
Mas ao invés de gritar, ele apenas
consegue ver sua mãe usando a pena para assinar o papel que acabara de ler.
A coisa que observava Gerson solta um
grunhido e ele se vira, dando um grito abafado de susto.
Nada se mexe na escuridão, mas o
menino arranja forças sabe Deus de onde para começar a recuar de costas, na
direção das duas mulheres.
Bate em algo. Ao se virar, vê que
bateu na própria mãe, parada atrás dele.
Aliviado, ele a abraça, sem perceber
que ela o observa de uma maneira estranha, triste. Ela o abraça também, mas sua
pele está fria, sem o calor que Gerson estava precisando para acalentá-lo.
Ele não vê Josie olhar para Irene e a
velha faz que sim.
Josie simplesmente ergue o filho e o
carrega até o caldeirão.
Ao perceber isso, Gerson começa a
espernear e a gritar, mas nenhuma palavra sai de sua boca pois o medo o impede
de pensar coerentemente para produzir sons com algum sentido. Ele só conseguia
duvidar do que estava acontecendo ali. Nada daquilo era real. Tudo era um
pesadelo e logo ele ia acordar em sua cama no seu quarto, podendo correr direto
para o quarto dos pais à procura de proteção. Hoje procuraria o pai. Sua mãe
tinha estado muito estranha naquele pesadelo.
Sem ter idéia do que corria na cabeça
do filho, Josie o ergue um pouco mais ao parar em frente do caldeirão e
gostaria de dizer que ela hesitou um instante, mas não foi o caso : ela o joga
dentro do caldeirão escaldante.
Ele cai no líquido borbulhante e tenta gritar, lutando
com aquela gosma que entra em sua boca. Tenta mesmo pular por reflexo, usando o
fundo ardente do caldeirão para dar impulso, mas Josie o segura pela cabeça,
mergulhando-o, ela mesmo agora gritando pelo calor do caldo efervescente.
Os dois travam uma batalha assistida
passivamente por Irene.
Josie retêm o filho ali, aos berros,
até que Gerson cessa qualquer movimento.
Ela dá um passo cambaleante para
trás, a respiração entrecortada.
Olha aparvalhada para o caldeirão.
Vê fiapos do cabelo do filho boiando
na superfície esverdeada que agora tem traços de vermelho aqui e ali.
Suas mãos estão vermelhas também ,
mas das queimaduras. Elas ardem, mas para Josie isso é apenas um elemento a
mais de sua dor.
A velha se aproxima e fita o interior
do caldeirão. Ela pega uma colher de ferro enferrujado com um cabo de mais ou
menos um metro e mexe o líquido. Josie olha para as próprias mãos, cobertas de
bolhas.
Cai no chão, como um boneco sem
forças, as mãos caídas ao lado, choramingando.
Sem se abalar, a velha experimenta o
caldo.
Volta até uma prateleira e pega algo.
Josie soluça.
A velha apanha um copo longo e o
enche com o líquido viscoso. Vai até Djose e passa o copo para ela. Josie
retribui com um olhar suplicante. A velha ostenta seu olhar inabalável. Josie
pega o copo e, chorando, com nojo e tendo que fazer muito esforço, bebe.
A velha pega o copo antes que Josie o
derrube.
– Levante-se – ordena a Josie.
Josie olha para a mulher como que
indicando que não tinha como. A passividade da outra faz com que ela acabe
achando forças e se erga.
– Vá embora agora – completa a velha
- O que está feito, está feito.
Dá alguns passos trôpegos mas aos
poucos pega um mínimo de ritmo e consegue se dirigir com pernas trêmulas para a
entrada da caverna.
Apóia a mão antes de sair do campo de
visão da velha. Volta-se.
– Eu vou conseguir o que quero? – consegue
arranhar as palavras.
– Se não conseguir – responde Irene
-, ninguém poderá negar que você fez o máximo que pode por seus sonhos...
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