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Mostrando postagens de outubro, 2024

ANTES DE DORMIR - SEM SAPATO E SEM MEIA

- A gente vai ter que cumprimentar a família, né? - Melhor não - responde Isaias - Não consigo tirar os olhos dos pés dele. Romão entendeu o que o outro quis dizer. Miele prevendo sua morte iminente pediu algo inusitado: ser enterrado descalço e sem flores dentro do caixäo, que também teria que ser o mais simples possível, de preferência com uma madeira que fosse facilmente quebrada. Falada, a ideia poderia até ser interessante, mas assim na prática, era exdrúxula. Miele dissera ter se baseado em um documentário que ele viu sobre o enterro do cineasta Glauber Rocha. - Vamos cumprimentar ou não? - Não sei... Eu nem os conheço direito. Acho que eles também nem sabem quem a gente é. - O Miele era muito na dele, né? - Era. - Nunca chamou a gente pra nada na casa dele. - É. - Nunca chegou junto. - É. - E se o chefe perguntar se a gente cumprimentou a família? - Pra que ele ia perguntar isso? - Sei lá - murmurou Romão dando de ombros - Mas, e se perguntar? - Vam...

ANTES DE DORMIR - VÃO-SE OS ANÉIS...

  Ela e o filho de sete anos entraram na caverna escura. Iluminando o ambiente, apenas tochas nas paredes e nada mais. O aspecto rude e sombrio era maior pelo aspecto de sujeira. Se aquilo era uma habitação, merecia ao menos uma vassoura de vez em quando. Josiane deve que tomar cuidado para não sujar o conjuntinho creme que estava usando. A decoração realmente deixava a desejar, se comparado ao conforto do apartamento em que viviam.   Mais à frente, onde a cavidade de entrada dava abertura para uma espécie de sala vagamente circular, havia uma luminescência tosca criada por um fogo aceso abaixo de um caldeirão de um metro e meio de diâmetro.Nada mais típico. A tal Irene sabia mesmo como manter a “chama acesa”.   Ao se aproximar, Josiane viu que o caldeirão estava cheio, com um líquido viscoso e fumegante. O mau cheiro empesteava o lugar, mas Josie sabia que para conseguir o que queria, alguns sacrifícios tinham que ser feitos. Olhou para o filho. Ele apertava sua mã...

ANTES DE DORMIR - MORITURI

  O céu estrelado.   O novato contemplou o céu e se sentiu parte dele.   Ele adotara o corte franciscano e usava bata de padre com um pequenino crucifixo plano de madeira para a ocasião. Esperava estar fazendo a coisa certa.   Um cão late e o distrai.   A atenção do novato voltou para a construção a sua frente, o único naquele lugar deserto, no meio do campo.   A construção tinha linhas simples e parecia uma casa de dois andares, sem preocupações estéticas. Ninguém diria que aquele era o templo da Ordem a não ser por alguns holofotes em pontos estratégico e o pátio, com todos aqueles agentes vestidos em uniformes negros e cães de guarda.   Um dos quais rosnava agora para ele por detrás da grade, contido pela coleira na mão do segurança de quepe.   O novato olha para trás de si a tempo de ver o micro-ônibus que o trouxera passar pela cancela e sumir.   Um sujeito de batina sai apressado do prédio da Ordem e vem em sua direção, ...

ANTES DE DORMIR - NÃO OLHE AGORA

  1        Régis e Ana entram no apartamento carregando as últimas caixas da mudança. São as últimas mesmo, agradecem aos céus, as camisas empapadas de suor, cientes do passar do dia. Já vai ficando escuro lá fora.   - Até que enfim –solta Régis aliviado.        Nada como aquela sensação boa de dever cumprido, mesmo que um a seu bel prazer. Finalmente estava em seu próprio apartamento. Só, livre, bicho solto.        Ana não fala nada. Apenas vai até o sofá, senta-se e coloca a caixa de lado enquanto Régis coloca a sua no chão e vai até a cozinha, onde a geladeira já teve tempo de esfriar as garrafas d´água que colocara pela manhã,   - Nem acredito que acabou – comenta ele.        Ana mexe na caixa que trouxera, silenciosa ainda.   - Quer água?        Ela acha uma foto sua com Régis no meio da tralha da caixa que carregara.   - Não – responde seca...