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Mostrando postagens de novembro, 2024

CONTOS DE NINAR - PEDACINHO

 PEDACINHO   Diana e Bené caminhavam na mata por tempo bastante para trocar a água que beberam pelo suor na camisa. Fazer trilha era algo comum para Diana e, por dentro, estava bem feliz por ter conseguido convencer Bené a vir junto. Mas andaram calados grande parte do tempo. Bené sempre tivera problema com conversa fiada, com aquele tipo de pergunta que você não precisa responder. Odiava quando alguém dizia: - Você aqui? Se ele estava lá, a pessoa o via, pra que falar algo tão besta. Por isso, Diana sempre pisava em ovos e pensava duas vezes antes de abrir a boca quando estava perto dele. Não era algo que lhe agradava muito, mas por Bené, fazia esse esforço. Mas com meia hora de terra despavimentada, já estava agoniada em manter o bico quieto. - Ainda bem que você concordou em vir – começou Diana quando Bené finalmente fez uma parada de descanso, tirando a mochila das costas suadas e curtindo a paisagem - Estava preocupada. - Com o quê? - Seu isolamento. - Não t...

CONTOS DE NINAR - ACUMULADOR

 ACUMULADOR   - Sua casa é bonita. - Obrigado. O rapaz olhou em volta, avaliando o lugar. A sala era um tanto vazia, pouca mobília. Provavelmente de propósito, algo minimalista. O sofá parecia meio caído, cansado de guerra. A mesinha de centro não era a que escolheria e a tevê em frente, embora grande, já podia ter sido trocada por um modelo mais moderno. Foda-se. Não viera para isso. Viera só pra se divertir mesmo. Ouviu o tilintar da chave quando o homem atrás dele os trancou. Não se importou também. Já passara por isso antes. Qualquer coisa, tinha spray de pimenta no bolso. E fechar as portas era um comportamento normal no Rio de Janeiro. Nenhuma vizinhança estava mais a salvo, mesmo nesse bairro distante, cuja casa mais próxima parecia estar a um quilometro, pelo menos. Jarden morava no centro de Campo Grande, mas já tinha vindo para recônditos como esse, mais perto do mato. Sempre achara que morava na roça, mas essa casa no meio do nada ganhava o prêmio. O l...

ANTES DE DORMIR - A NATUREZA DO HOMEM

  A NATUREZA DO HOMEM     O bruto corria atrás da própria filha e acabou conseguindo encurrala-la na caverna onde se abrigavam. Os animais ouviram ela resistir, mas o que podiam fazer? A mulher se aproximou do que tomava por lar e parou próximo à entrada. Carregava um facho de galhos e os deitou perto das brasas remanescentes da fogueira anterior. Assim como os animais, também ouviu sua filha lá dentro, sufocando nas sombras, mas apenas se pôs a arrumar os galhos secos, tratou de criar fogo, colocando algumas folhas verdes para criar fumaça e afugentar os insetos, já que o sol logo cederia à lua. Bem mais tarde, quando o homem, a mulher e sua cria já dormiam e esqueciam as mazelas do dia, algo que parecia um homem se aproximou e se deteve na boca da caverna. Observou por horas os humanos deitados em seu abrigo pedroso e sorriu ao perceber que sua presença fazia com que o sono destas se transformava em algo inquieto, repleto de sonhos ruins. O cavalo, a cabra...

ANTES DE DORMIR - SAIDEIRA

  SAIDEIRA   1 Rafa é magrela e esquentado. Sempre que abre a boca, as palavras parecem estar dois tons acima, como agora, enquanto tateia a parede, intrigado, uma das mãos segurando o celular que usa como lanterna. - Cadê a porra da porta que tava aqui? Mal acaba de pronunciar a frase e uma porta escura e robusta aparece do nada. Era bem diferente da que usara para entrar naquele aposento. Ela está aberta e Rafa estranha ao notar que ao invés de dar no corredor, exibia uma espécie de guarda roupa embutido onde nem caberia uma pessoa dentro. Mas como ainda estava no impulso de esmurrar a parede, Rafa se desequilibra e queda pra frente, sendo engolido pelo armário e batendo de cara no fundo. A porta maciça se fecha com tremenda violência, empurrando e esmagando o corpo do rapaz de apenas 21 anos, o espremendo no espaço exíguo. A porta grossa se abre e bate mais cinco vezes antes de fechar de vez com um estrondo que ecoa pela casa vazia, o som se espalhando pelo corred...

ANTES DE DORMIR - ABANDONADOS

  ABANDONADOS   A cidade suspira e se sente um tanto deprimida. Lugares abandonados tendem a sofrer mais com o tempo. Quem diria que os humanos fariam falta... Aos seus pés, uma brisa brinca com sacos plásticos ao pé de prédios imóveis, sem vida, sem graça. A falta de sons, de ruídos, cacofonia, de musicas não tão convenientes, tudo faz a cidade repensar sua existência. Ambientes construídos por mãos humanas, mas onde estavam essas mãos humanas agora?             A cidade suspira mais uma vez, mas então, algo inusitado acontece. Passos! Passos ecoando no asfalto!             Um homem atrás de uma mulher. Oba, temos uma história! Sempre há uma boa história onde há um homem e uma mulher.             Ele a segue. São jovens. Ele está nervoso, tem uns 22 anos, magro e sem estilo, jeans e camiseta. Tem c...