ANTES DE DORMIR - A NATUREZA DO HOMEM

 A NATUREZA DO HOMEM

 

 

O bruto corria atrás da própria filha e acabou conseguindo encurrala-la na caverna onde se abrigavam.

Os animais ouviram ela resistir, mas o que podiam fazer?

A mulher se aproximou do que tomava por lar e parou próximo à entrada. Carregava um facho de galhos e os deitou perto das brasas remanescentes da fogueira anterior. Assim como os animais, também ouviu sua filha lá dentro, sufocando nas sombras, mas apenas se pôs a arrumar os galhos secos, tratou de criar fogo, colocando algumas folhas verdes para criar fumaça e afugentar os insetos, já que o sol logo cederia à lua.

Bem mais tarde, quando o homem, a mulher e sua cria já dormiam e esqueciam as mazelas do dia, algo que parecia um homem se aproximou e se deteve na boca da caverna. Observou por horas os humanos deitados em seu abrigo pedroso e sorriu ao perceber que sua presença fazia com que o sono destas se transformava em algo inquieto, repleto de sonhos ruins.

O cavalo, a cabra e o galo o perceberam e também ficaram apreensivos, mas trataram de permanecer em silêncio. Ainda assim, a coisa virou-se para eles e se arrastou da boca da caverna até a área onde eram mantidos em sua subserviência ao homem. O ente quase humano pronunciou de uma maneira que os três puderam ouvir sem dificuldade.

- Meu pesar por vocês – soou claramente na noite, mas sem parecer tinir verdade – Hão de sofrer. Sintam-se a vontade para revidar.

E sem mais, a coisa se afastou, coxeando um pouco, mas tentando manter sua postura quase humana.

O cavalo, a cabra e o galo não souberam o que expressar e permaneceram calados, com medo de que qualquer ruído fizesse aquilo voltar.

Nos dias que se seguiram, a rotina continuou praticamente a mesma: o homem os alimentava e usava, ignorando o quão seu mundo era pequeno, se resignando a manter o local funcionando através das tarefas monótonas de sua família.

O tempo do homem na terra estava apenas começando, mas para aquele pequeno núcleo , foi-se um ano. O cavalo virou montaria, a cabra viu sua prole virar alimento e sacrifício a deuses sem rosto e, ao ver isso, o galo tratou de arranjar uma ocupação que justificasse sua existência, que de bobo ele não tinha nada. Procurou indicar ao homem que o dia nascia. Utilidade era sinônimo de significância, ainda mais ante aquela espécie bárbara que via os animais como um nada.

E o tempo foi passando. Outro ano se foi e os animais pararam de se comunicar entre si por estarem cansados de ouvir suas próprias lamurias, seus contos de sofrimento e pesar. Tanta dor ao longo de tanto tempo emudece até a mais nobre das almas, como diria a cria do homem que já esperava outra cria do homem.

Mas, como que sentindo ser necessário, o cavalo, a cabra e o galo tiraram uma noite para se afastar pro canto mais afastado e lembrar de velhas histórias. Esperaram até que seus carcereiros se recolhessem.

- É o que estou dizendo – prosseguiu o cavalo – Por que um homem pode envelhecer em paz e pensar em sacrificar aos meus por achar que estamos nos cansando mais rápido? Não é justo, é o que sei.

- O que é justo? Já não aceitamos a natureza do homem? – diz o galo - Não estamos aqui contidos, presos, à espera de um milagre? Pensa que não sofro por cada filho abatido? Somos cria do planeta. Não foi o homem que nós fez existir. Não devíamos continuar nesse ciclo vicioso de existência inútil. Somos seres vivos e...

- E nada! – interrompe a cabra – É isso que viemos conversar aqui? Continuar com as lamentações? Continuar choramingando? Se é isso, melhor eu ir andando.

- Não! Espere – diz o cavalo, antes que a cabra possa recuar e voltar à parte da cerca que lhe cabe - Talvez devamos revidar. Lembram do que mencionei antes?

- Aquele homem? – responde o galo.

- Aquilo não era um homem – diz a cabra.

- Parecia um homem, então para mim era um homem.

- Ele disse que podíamos revidar.

- Não foi isso que ele quis dizer.

- Foi exatamente o que ele quis dizer.

- Eu não lembro direito...

- Você preferiu esquecer.

- É. Provavelmente.

- Eu posso coicear o homem, a cabra pode derrubar a mulher e você, galo, pode bicar a cria deles nos olhos. Sem ver, ela logo sucumbiria à vida em volta.

- Não sei.

- Se tivermos que fazer algo, é melhor que façamos logo. Mais dia, menos dia, o homem dará cabo de nós.

- Não sei.

- Ou estamos juntos nisso, ou não conseguiremos nada.

Os animais tomam alguns minutos em quietude para refletir o que fazer. Sempre foram bons em manter-se em silêncio. E então, o galo respirou fundo, estufou o peito e cocorejou sua conclusão.

- Não devemos fazer nada – diz o galo – Deixe as coisas acontecerem do jeito que devem acontecer.

- Você diz isso porque deve achar ter função pro homem, deve achar que ele não tem intenção de se livrar de você tão cedo. Espero que não se arrependa de sua covardia.

- Por que não faz tudo sozinho? – revida o galo, tentando com todas a s forças manter sua voz baixa o suficiente para não acordar a família na caverna -  É o mais forte de nós! Provavelmente não terá dificuldades de conseguir o que quer! Pisoteie o homem, morda a mulher, faça o que quiser com a cria!

- Posso tentar, mais terei bem menos chances de conseguir resolver a situação. Cabra, você me ajudaria?

- Não sei... Tenho medo. Acho que aproveitaria para fugir. Não queria me envolver.

- Entendo – assente o cavalo - Mas vocês não estão levando em conta a natureza do homem, sua sensação de posse sempre se faz presente. Você foge e ele vai atrás de você. Ele acorda irritado e vai implicar com seu canto, galo.

O galo e a cabra abaixam a cabeça, cientes de que o cavalo dizia a verdade. Ainda assim, sem mais uma palavra, viraram para voltar para o ponto em que pertenciam, o lugar que o homem os forçou a viver.

O cavalo suspirou e então, num galope sem força, fez o mesmo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ANTES DE DORMIR - MORITURI

ANTES DE DORMIR

ANTES DE DORMIR - NÃO OLHE AGORA