ANTES DE DORMIR - ABANDONADOS
ABANDONADOS
A cidade suspira e se
sente um tanto deprimida. Lugares abandonados tendem a sofrer mais com o tempo.
Quem diria que os humanos fariam falta...
Aos seus pés, uma brisa
brinca com sacos plásticos ao pé de prédios imóveis, sem vida, sem graça. A
falta de sons, de ruídos, cacofonia, de musicas não tão convenientes, tudo faz
a cidade repensar sua existência. Ambientes construídos por mãos humanas, mas
onde estavam essas mãos humanas agora?
A
cidade suspira mais uma vez, mas então, algo inusitado acontece.
Passos!
Passos ecoando no asfalto!
Um
homem atrás de uma mulher. Oba, temos uma história! Sempre há uma boa história
onde há um homem e uma mulher.
Ele
a segue. São jovens. Ele está nervoso, tem uns 22 anos, magro e sem estilo, jeans
e camiseta. Tem cabelos castanhos, um pouco longo, mas quem ainda se preocupa
com isso? Já ela parece mais velha, uns 28, quem sabe. É morena, cabelo negro e
denso. Ele quer comê-la, não há dúvida quanto a isso. E pelo aspecto deserto
dessas ruas, mesmo que ela fosse gorda, zarolha, velha e banguela, ele faria um
esforço. A cidade já vira muito por menos.
Ela usa apenas um vestido
estampado que serviria perfeitamente para um dia normal de trabalho nesses
prédios largados. Ela tinha uma elegância inata, ao mesmo tempo que parecia recatada,
era agradável aos olhos gulosos do rapaz. É impressionante como as mulheres tem
essa capacidade de sempre parecerem ter acabado de sair dum banho de sais.
Ela está há alguns passos
a frente dele. Tem o andar firme de quem não espera por ninguém e se chama Ada.
Ele se chama Evan. E qualquer semelhança , blá blá blá.
- Espera, Ada.
Hum, ela para. Bom sinal.
Ele tem chances.
- O que é que você quer, Evan. Não já
falamos tudo que havia para falar?
Oh-oh, o tom dela não foi
legal. Não vai rolar.
- Pô, me dá uma chance, vai.
Ele vai insistir. Tem
chances, tem chances...
- Evan, você já teve todas as chances
e ainda assim conseguiu estragar tudo.
Reincidente. Tá ferrado.
Não vai rolar.
- Dessa vez vai ser diferente...
Ele é bom, mas essa é
velha. Todo mundo diz isso. Ela não parece que cairia por um chavão desses, mas
mulher é imprevisível. Além do que, aqui tá deserto para ela também.
- Diferente por que?
- Nós fomos feitos um pro outro.
Caramba! Será que ele não
se toca que com esse tipo de papo recauchutado não vai conseguir nada?
- Quem te disse isso? Seu pai?
Ui.
- Você não entende? Somos só nós
agora!
Ah, isso explica porque ela
tem que ceder. Coitado. Parou no tempo.
- E daí? Não sabe se virar sozinho
não?
O que ela quis dizer com
isso? Será que ela não sabe que é melhor a dois? E está começando a escurecer.
O sol molha de reflexos brilhantes os vidros dos edifícios sem vida. A cidade
fica bonita por alguns minutos de luz laranja e hoje então... Deve ser esse
clima de romance no ar. Seria bom se esses dois terminassem a noite juntos e
repovoassem a Terra.
Ela dobra uma esquina e
olha em volta à procura de algo que não vai estar lá. O vazio a faz hesitar.
Ele vai dobrando a esquina também, as mãos nos bolsos, desalentado, a própria
imagem do cachorro abandonado. Canalha, até a atitude é a mesma de sempre. Bom,
mas se chegamos ao final dos tempos, ninguém está aqui para repreendê-lo.
- Tá com fome?
Boa jogada. Fez ela
lembrar quem é o macho aqui, o provedor, o caçador, o líder da matilha.
- Eu me viro.
A cidade se cala e decide
só observar.
- Eu posso tentar achar algo para
gente comer.
Ele não se dá por
vencido. Ponto para ele.
- Eu me viro.
- Nós temos que nos juntar!
- Pra quê? Pra eu ter que te
aguentar?Esse tempo já passou. Eu não preciso de você pra nada.
Ela volta a andar e ele
vai atrás dela, como um cachorro abandonado.
- Mas eu preciso de você...
- Mas quando não precisou, o que fez?
Ela olha o interior duma
vitrine. Para quê? Mesmo que se interesse por algo, vai usar para que? Para
quem? Quem vai notar agora o que ela está usando? Só ele, mas ela com certeza,
tá cagando pra o que ele pensa ou deixa de pensar.
- E faço o quê? Esqueço tudo que você
já fez? Bebeu?
- Você vai ser minha custe o que
custar!
Opa! Ele a agarra!
Opa! Ela se desvencilha
dele e o joga no chão com um golpe de arte marcial.
- Ei, onde você aprendeu isso?
- Aprendi quando vi que contra você
não há argumento.
Ela continua em frente e
ele se senta no chão, com cara de coitado. Será que acha que ela esqueceu que
não faz nem meio segundo que a atacou?
- Eu não ia te machucar...
Esqueceu.
- Não? Ia o quê então? – diz ela, sem
se virar.
- Pô, se a gente não fizer nada, vai
acabar aqui.
Já tinha apelado para o
lado provedor, pro lado gladiador, agora tá apelando para o lado procriador.
- Se acabar, talvez recomece de outra
forma e dessa vez seja de uma forma mais justa.
- Justa? Do que é que você está
falando? Com aulas de defesa pessoal para geral desde a primeira série?
Ele se ergue.
- Você é que não está sendo justa – diz
ele – Se não fizermos nada, acaba aqui!
- Que seja! – diz ela, ainda seguindo
em frente - Você tinha que ter pensando nisso tudo antes. Não agora quando não
há mais ponto de retorno.
Ela se afasta, altiva,
ciente de quem, certa de seus passos. Já ele permanece cabisbaixo por alguns
instantes, até que aos poucos, reergue o rosto.
- É, você ganhou esse round -
sussurra, embora não tenha ninguém aqui para ouvir - mas em algum momento você
vai ter que baixar a guarda e dormir...
Ele volta a segui-la e tudo o que a cidade pode fazer e ouvir seus passos.
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