CONTOS DE NINAR - ACUMULADOR
ACUMULADOR
- Sua casa é bonita.
- Obrigado.
O rapaz olhou em volta, avaliando o lugar. A sala era um tanto vazia, pouca mobília. Provavelmente de propósito, algo minimalista. O sofá parecia meio caído, cansado de guerra. A mesinha de centro não era a que escolheria e a tevê em frente, embora grande, já podia ter sido trocada por um modelo mais moderno.
Foda-se. Não viera para isso. Viera só pra se divertir mesmo.
Ouviu o tilintar da chave quando o homem atrás dele os trancou. Não se importou também. Já passara por isso antes. Qualquer coisa, tinha spray de pimenta no bolso. E fechar as portas era um comportamento normal no Rio de Janeiro. Nenhuma vizinhança estava mais a salvo, mesmo nesse bairro distante, cuja casa mais próxima parecia estar a um quilometro, pelo menos.
Jarden morava no centro de Campo Grande, mas já tinha vindo para recônditos como esse, mais perto do mato. Sempre achara que morava na roça, mas essa casa no meio do nada ganhava o prêmio. O lado bom é que não corria o risco de cruzar com algum vizinho enxerido.
Chegou a pensar que o homem que o arrastara ali podia ser um miliciano. Tinha amigos que já saíram com policiais e bandidos. Esse tinha uma cara de cafajeste, de ordinário, de quem gosta de dar umas palmadas. Pensar que ele podia ser assim fez o rapaz sentir um arrepio na espinha, mas não de medo. Esperava que a sua experiência fosse boa. Não ia se importar se fosse tratado com uma certa brutalidade. Já tinha levado uns tapas e dado alguns na hora que a coisa pegava fogo. Não ia estranhar mesmo.
Virou-se e o homem ainda estava perto da porta, o fitando e sorrindo, um sorriso amistoso, não ameaçador. Jarden o achara sexy na boate, mas agora podia ver que ele era bonito mesmo. Tirara a sorte grande. Rosto bonito, corpo robusto.
- Quer beber alguma coisa?
- Pode ser – respondeu Jarden, dando de ombro. No fundo queria partir pros finalmente. Não gostava de enrolação. Já tinha bebido o suficiente.
- Vou pegar algo.
Jarden o viu cruzar a sala e entrar num corredor. Pelo sim, pelo não, pegou seu celular e mandou uma mensagem pra um amigo junto com sua localização. Seguro morreu de velho. Já entrara de cabeça em algumas roubadas, nada muito sério. Tinha 26 anos e começara a sair aos 18, logo após assumir pra mãe. Ela azedou a cara por um tempo, mas hoje em dia cobrava dele um relacionamento mais sério ao invés de tantos ficantes.
Jarden queria se divertir muuuito antes de se amarrar em alguém e se achava sortudo, sempre conseguindo o homem que ia atrás. Tinha sorte, mesmo em alguns programas de índio que se metera. Quando o homem retornou com duas latinhas de cerveja, o celular já tinha voltado para o bolso de trás de seu jeans justo.
- Pode ser cerveja?
- Claro.
- Quer ver uma coisa legal?
Jarden estranhou. O cara estava enrolando demais. Não deviam logo se pegar? Suspirou por dentro, mas ao invés de reclamar, apenas fez que sim.
- Foi o que me fez comprar essa casa.
- Uau! – exclamou Jarden, fingindo surpresa, mas sem realmente estar interessado – A casa é sua?
- Venha aqui – disse o home sorrindo e apontando uma escada estreita, cedendo passagem para que Jarden, hesitante, descesse na frente.
- Você tem um porão? – perguntou Jarden, agora um quê de preocupado, pensando em psicopata e em bondage - Nunca vi um antes. As casas aqui do Brasil não tem, né? Tô me sentindo como se tivesse sido transportado para um filme americano.
- Filme americano, é mesmo – ri-se o homem às suas costas - Sabe outra coisa que porão lembra?
Ele empurra Jarden escada abaixo.
- Acidente.
Por sorte, Jarden não estava tão distraído. Quando o empurrão veio, ao invés de cair para frente, Jarden meio que pulou uns três degraus para baixo e nem parou para esperar o que mais podia acontecer. Já que o homem bloqueava a saída para cima, tratou de descer mais rápido e que Deus o ajudasse.
Ainda assim, estava num ambiente desconhecido e numa situação que passara de diversão para pânico em segundos. Não conseguiu evitar de tropeçar e cair no último momento. Mas tratou de se virar e se arrastar até dar de costas na parede. O porão estava mal iluminado, não conseguia distinguir nada concreto. Mas sentiu várias coisas espalhadas de qualquer jeito no chão empoeirado: roupas, carteiras, relógios, pequenos objetos de uso pessoal e até uma embalagem de balas Halls.
Ouviu sons que o incomodaram, de ossos estalando. O homem devia estar fazendo isso com os dedos da mão. Nunca gostara desse som, lhe dava agonia, sempre parecia que algo estava se quebrando. Aguçou os sentidos e tentou ouvir mais, não queria ser pego com um “bu” soando do seu nada do seu lado.
- Sabe, eu deixo até que a vontade seja insuportável. Só aí saio para caçar... – disse o homem com a mesma voz agradável que o chamara para segui-lo até ali, soando ainda de algum ponto no meio da escada - Antes eu me valia da surpresa, eu espreitava, ficava nas sombras de becos. Mas quando te vi, quis tentar diferente, te seguir e fazer as coisas às claras, em aberto. Nunca tinha entrado numa boate. Gostei, me diverti. Muito tempo que não me sentia assim. Tá tudo tão bacana essa noite que vou até de contar tudo, enquanto te caço. Geralmente fico quieto, juro.
“Quem jura em vão, morre pagão”, pensa Jarden e olha para o lado, tateia para ver se consegue algo para se defender, mas o escuro ainda o mantinha na sinuca.
- Sabe, tudo começou aqui. Esse porão realmente tme algo de especial. Eu o estava arrumando quando me deu esse estalo. Não foi qualquer estalo, foi o Estalo, com E maiúsculo. O mesmo que me deu quando comprei a casa. Por causa do porão. Alias, me decidi comprar quando desci aqui, quando pisei aqui. Nem tinha gostado da casa, juro. Ia desistir. Pensando bem, cheguei a desistir. Mas aí o vendedor me falou para descer aqui. E aí... o Estalo. Talvez deva usar isso como meu apelido pros jornais, caso seja pego um dia. O Estalo. Ou o Estalinho, que nem as bombinhas pras crianças pequenas, sabe? Pop-pop-pop.
Jarden ouvia a voz mais próxima e prendia a respiração. Suava e teve medo que mesmo um pingo de suor caísse e pudesse ser audível. Se ao menos pudesse pegar seu celular e mandar uma nova mensagem para seu amigo. A parede parecia muito, muito fria contra suas costas praticamente nuas. Tinha vestido só uma camiseta de tecido leve pra se mostrar um pouco, deixar os braços expostos na balada. Era magro, mas bombadinho. Pena que os músculos bonitos eram mais pra marketing do que para uso e não estavam adiantando de nada nesse instante.
Sabendo ter o controle da situação, o homem se permite dar uma risadinha.
- Quem sabe eu não comece a pegar crianças também? – diz ele, finalmente chegando ao pé da escada - Novas experiências, é sempre bom. Essa agora está sendo excelente. Nunca me senti tão excitado. Olha pra mim para ver como eu to falando sério.
O homem tinha vindo devagar porque estivera tirando a roupa na descida. Esticou a mão pro lado e pressionou o interruptor. A luz invadiu o porão e Jarden pode ver que o cara de cafajeste estava excitado.
Outra: Jarden estava exposto. Não tinha se escondido atrás de nada.
- Achei você – disse o homem, zombeteiro.
Jarden se desesperou. Tinha que fazer algo e agora. Como não podia recuar, deu um pulo pra frente e ia tentar derrubar o homem e passar batido pra escada, ia subir dois ou três degraus de uma vez, ia sair correndo que nem...
A ideia na cabeça funcionava, mas suas pernas se recusaram a reagir do jeito que ele queria. Mas já que isso não tinha acontecido, pelo menos conseguiu virar a cabeça e ver uma marreta perto de sua mão. Nem pensou muito e a agarrou. O cara de cafajeste tinha se adiantado e mergulhado pra frente, as mãos estendidas, doido para apertar o pescoço de Jarden, mas deve que se deter quando o rapaz conseguiu martelar seu pé de apoio, o que tinha posto exposto demais, acreditando que o medo teria mantido sua vitima indefesa.
Ele urra de dor e esse é o som necessário para que Jarden consiga fazer agora o que tinha pensado em fazer antes, mas a marreta em sua mão ainda lhe proporcionou a coragem suficiente para se erguer e dar mais um golpe no seu algoz, dessa vez bem no queixo.
O homem dançou para o lado e Jarden tratou de disparar em frente. O porão não era tão grande. Dois passos apressados seriam suficientes para chegar na escada.
Mas Jarden lembrou o que o homem falara sobre querer pegar crianças. E se ele não estivesse mentindo. Se ele fosse começar a pegar crianças. Tinha tanta na rua, de bobeira. Pais e mães ausentes, crianças nos sinais tentando descolar um trocado. Esse maníaco ia pegar as crianças e ainda ia ter uns babacas na internet tecendo comentários de que, se livrando delas, o assassino estaria fazendo um bom serviço para comunidade. Jarden tentou pensar no que podia fazer. Não se tratava mais só de fugir, mas de deter aquele animal. Lembrou tudo que já ouvira falar sobre serial killer. E a marreta lhe oferecia um tipo de segurança que o fez se voltar. Ia detonar aquele canalha e...
Não esperava o murro no meio da cara.
- Nossa, tá sendo tão bom conversar com você – disse o homem já desferindo um novo soco no rosto de Jarden - Conversar com alguém. Estava com isso tudo entalado aqui dentro, me sufocando – continua, agora dando um chute na perna de sua vítima, antes que ele consiga se recompor - Antes era legal ter um segredo, esconder do mundo do que eu era capaz, rir por trás da máscara que a sociedade exige da gente – conclui, dando mais um golpe no rapaz - Mas depois foi ficando chato, foi dando aquela coceirinha na ponta da língua.
Jarden cai, mas consegue manter a marreta presas entre os dedos e tenta usa-la para manter o maluco afastado, a brandindo a sua frente. Mas ela é pesada, sabia que não ia conseguir manter isso por muito tempo. Pra piorar, percebe que o homem continua excitado. Isso o faz se sentir pequeno e sujo. Arriscara a vida pelo que? Por isso? Lembrou da mãe pedindo que ele arranjasse uma relação estável.
Então percebeu que o homem o ameaçava, mas não estava tão no domínio na situação quando deveria estar. Mancava. A marretada que acertara no sujeito tinha feito um serviço bonito, achatando uma parte do pé, não o deixando andar tão bem e confiante. Jarden apertou os dedos no cabo e avaliou suas chances. Podia acertar o outro pé, jogaria a marreta na cara do babaca e subiria o mais rápido que pudesse. Ia rumar pra sala e mesmo que a porta estivesse fechada, sairia pela janela, foda-se se alguém visse e estranhasse. Aliás, seria bom se algum vizinho ou um carro de polícia visse, Seria o máximo. Pensando assim, Jarden tratou de apertar os dedos no cabo e juntar força p0ara dar seu golpe mais forte.
Mas algo apertou os dedos em seu tornozelo e a situação despirocou de vez, num português bom e bem claro.
Do chão brotou uma mão que o segurou. Do lado, o piso cedeu e um outro buraco se abriu. Um rosto apareceu, como que querendo espiar o que acontecia no porão. Era um rosto seco, sulcado. Outra mão saiu perto das costas de Jarden e se enterrou ali, na altura da omoplata, puxando o rapaz para trás. Seu perseguidor tinha parado e observava.
Mais rostos surgiram em buracos no chão. E mãos que prendiam o rapaz assustado, o imobilizando.
- É como disse – diz o cara de cafajeste – Esse porão tem algo de especial...
Jarden espadanou no chão como um peixe arrancado do rio. Tentava resistir, mas já não tinha forças. Seu algoz caiu sem jeito, ficando ajoelhado a sua frente. Ficou ali, com um olhar abobalhado, vendo as vitimas que tinham sido enterradas. Não reconhecia a maioria. Não tinha como. E isso fez com que seu rosto mudasse um pouco, e Jarden, que já dava conta de estar para as botas de vez, ouviu algo inesperado.
- Me perdoe.
Jarden emudeceu. De sua boca estavam saindo palavras desconexas e ruídos arfantes, mas o pedido de perdão o fez fechar os lábios.
Seu algoz se inclinou, movendo a cabeça lentamente pra frente, querendo ficar cara a cara com sua vítima. Mas a voz estava diferente, frágil.
- Eu sinto muito – esforçou-se em pronunciar o homem com pinta de miliciano – Foi o porão... O porão que pediu...
Ao dizer isso, algo pareceu escorregar de seu rosto. Algo tênue, sutil, como uma camada de maquiagem perdendo para o suor de um folião num bloco de carnaval. Era como uma espécie de verniz, o verniz que deixara aquele homem atraente. Sem ele, o que ia ficando para trás era um rosto comum que nunca teria atraído Jarden, mesmo no lusco-fusco da boate.
- O rosto, ele cuida; o pé, não – diz o homem, olhando pro pé amassado – Por isso está me dispensando, eu acho...
Ele sorriu e parecia se esforçar para dizer algo mais, mas mais mãos surgem e de forma extremamente rápida, o cara de cafajeste é mantido seguro enquanto chão do porão se leva atrás dele como uma grande boca e o engole, puxando e o tragando para dentro de si. A poeira move e se espalha onde ele estivera e mesmo o melhor dos detetives não seria capaz de dizer que um minuto antes um homem estivera ajoelhado ali. Jarden tentou proferir alguma palavra de surpresa ou terror, mas tudo que conseguiu foi tossir e engasgar. Mal notou que as mãos que o seguravam já o haviam largado. Só pode pensar numa coisa.
O porão.
Jarden ficou incapaz de qualquer reação mais, enquanto o cérebro entrava em ebulição com as últimas frases do morto.
O porão.
Nada daquilo fazia sentido.
E então, algo inesperado aconteceu. Ouviu. Foi como um estalo, mas não apenas isso. Havia uma mensagem. Ou ordem. Ou algo pior.
Mas Jarden continuou a ouvir.
Jarden mudou tanto que seu amigo nem o reconheceu.
Na boate, o mesmo amigo para o qual semanas antes Jarden havia mandado uma mensagem com sua localização numa casa afastada em Campo Grande. O mesmo amigo que se preocupara, mas que não deixara de viver a sua vida e vir à boate como fazia todo fim de semana. Por ele, Jarden podia estar apenas vivendo um namorico e ia procurá-lo no meio da noite.
Era mais ou menos o que o Jarden estava fazendo agora. Buscando uma nova aventura na boate e se envolvendo com o amigo que não o reconhecia. Pudera. Jarden estava bonito, de uma forma meio cafajeste. O verniz que o porão proporcionava era realmente bom, mudava tudo. Mudara Jarden por dentro e por fora. Seu amigo só via um cara atraente e sedutor. Mas um cara que tinha pensamentos distorcidos, e que sentia o que o porão precisava, buscando traduzir o que ele queria como se fosse ele que quisesse. Ele se tornara um acumulador como ele. Precisava ver o chão do porão cheio, abarrotado. Queria que a solidão fosse embora. E o porão trataria de sempre ter espaço para mais um.
E mais um.
E mais um.
E mais um.
Comentários
Postar um comentário