ANTES DE DORMIR - NÃO OLHE AGORA

 1

     Régis e Ana entram no apartamento carregando as últimas caixas da mudança. São as últimas mesmo, agradecem aos céus, as camisas empapadas de suor, cientes do passar do dia. Já vai ficando escuro lá fora.

 - Até que enfim –solta Régis aliviado.

     Nada como aquela sensação boa de dever cumprido, mesmo que um a seu bel prazer. Finalmente estava em seu próprio apartamento. Só, livre, bicho solto.

     Ana não fala nada. Apenas vai até o sofá, senta-se e coloca a caixa de lado enquanto Régis coloca a sua no chão e vai até a cozinha, onde a geladeira já teve tempo de esfriar as garrafas d´água que colocara pela manhã,

 - Nem acredito que acabou – comenta ele.

     Ana mexe na caixa que trouxera, silenciosa ainda.

 - Quer água?

     Ela acha uma foto sua com Régis no meio da tralha da caixa que carregara.

 - Não – responde secamente.

     Ela olha intensamente para a foto.

 - E o biscoito? – diz ele, abrindo um pacote que deixara em cima da geladeira.

- Não, comi demais no almoço – responde ela, colocando a foto de novo na caixa.

- Vai sair com o Enzo hoje? – pergunta Régis voltando para a sala, com um biscoito pendurado na boca.

- Ele me chamou para jantar – diz ela se erguendo.

- Ele é um cara legal.

- É.

- Promete que vai tentar se divertir?

    Ela faz que sim e vai para a porta, onde se vira como que o aguardando.

 - Você tem que abrir, senão eu não volto – consegue brincar ela.

- Opa, calma. Deixa que eu abro.

     Ana olha para o apartamento enquanto ele se aproxima, os últimos raios de sol filtrando pela janela num espetáculo de luz que ela achou que provavelmente lembraria para o resto de sua vida.

 - Superstição boba essa, né? – diz ele e ri.

- Não acredita nessa coisa?

- Só acredito nas contas que tenho apagar.Mas não queria.

     Ela sorri e dá um passo pro lado para que ele possa abrir a porta. Ele abre e dá passagem. Ela passa, parando já do lado de fora para encara-lo com uma certa gravidade, o sorriso deixado de lado.

 - Tem certeza que é isso que você quer? – pergunta ela, voz contida.

     Ele olha em volta e respira fundo. Dá de ombros.

 - Eu não tenho certeza de mais nada – responde Régis, meio sem jeito.

- Eu...

     Ela para, pensa.

 - Eu tenho que ir.

     Ele a abraça.

 - Obrigado – agradece ele - Por tudo mesmo.

     Ela o abraça mais forte. Olham-se nos olhos. Ela parece que vai falar algo mais, mas desiste. Dá um beijo no rosto dele e se afasta.

 - Vida nova – diz ela, já chegando na escada.

- Vida nova – repete ele, parado na porta para vê-la partir.

- Boa sorte – diz ela ainda, antes de desaparecer na descida.

     Ele sorri, fecha a porta, vai até a janela e a vê saindo do prédio simples e desaparecendo na rua sem olhar para trás. Régis coloca as costas na parede, escorrega para o chão, se arrasta para o canto e observa o apartamento. Finalmente tinha um lugar para chamar de seu. Estava mais do que na hora. Estava com vinte e oito anos. Não podia mais viver do jeito que estava vivendo, morando com os pais, tendo que dar satisfação de sua vida, tendo que viver de acordo com os padrões deles.

    Sorriu e fez uma prece em agradecimento à vida nova.

    Pouco depois, começa a arrumar as coisas. Queria já estar com o apartamento mais ou menos antes das sete. Por sorte, ele e Ana já estavam organizando as coisas a semana toda. O grosso já tinha sido trazido no dia anterior. Hoje fora só a raia miúda. Mesmo com pressa, Régis ainda se demorou em fotos, livros e lembranças das caixas. Colocou o relógio na parede, coisas menores em seus devidos lugares, arrumou copos, pratos e coisas de cozinha. Foi montando o quebra-cabeça que era transformar um lugar sem memórias num lar. Tomou um banho, se arrumou, se pôs à espera.

    E esperou.

    E esperou um pouco mais.

    Olhou o relógio de pulso.

    Olhou o relógio da parede.

    Pensou que havia algum problema com o relógio e chegou bem perto para tentar ouvir se estava funcionando mesmo.

    Só ouviu a campainha quando achou que os relógios estavam contra ele, que o tempo estava contra ele, que Deus estava contra ele. Por isso, ao ouvir a campainha, antes de atender, agradeceu aos céus, é claro.

    Antes de abrir a porta, colocou a mão em forma de concha entre o nariz e a boca e sentiu seu próprio hálito. Voou até o banheiro enquanto a campainha, antes tão esperada, agora esperava. Escovou os dentes o mais rápido que pode e deu uma última conferida no espelho.

    Sorriso ok.

    Cabelo ok.

    Roupa ok.

    Estava bem.

    A campainha tocou novamente, avisando que quem quer que estivesse na porta não havia desistido ainda, mas podia estar prestes a fazer isso. Régis correu para atender.

 

2

    O zumbido da mosca não pode ser percebido pelo casal de namorados que passa na rua correndo. Talvez nem pelo cachorro que está sendo levado pelo seu dono um pouco mais à frente.

     Então, alheia a todos a sua volta, ela voa e para num poste, observando em volta.

     Marcelo passa na calçada, os pensamentos longe. Não sabia ainda exatamente o que falaria com Régis mas sabia que tinha que ser sincero. Era a primeira vez dele e isso podia se tornar um entrave.

   Portanto, mesmo que pudesse, Marcelo não perceberia que a mosca decidira segui-lo.

     Quando Marcelo entra no velho prédio sem elevador e segue pelo corredor, a mosca observa as portas dos apartamentos e quase pode perceber o movimento por trás delas, determinando o número de moradores de cada uma. Era uma boa habilidade que adquirira e ajudava muito na sua caçada.

     De qualquer forma, achou que não ia ter que se preocupar muito. Parecia ter escolhido a vítima perfeita. Continuou a perseguir Marcelo enquanto eole subia as escadas, até ele parar em frente a uma porta no terceiro e último andar.

     Esperava que ele fosse tirar a chave de sua mochila, mas ao invés disso, o viu tocar a campainha. Mal sinal. Não era o que estava esperando. Sentiu que havia movimento lá dentro. Seu escolhido ia visitar alguém. Alguém que demorava a atender a campainha da porta mas que definitivamente estava lá dentro, prestes a receber o amigo ou o que quer que fosse. Sentias que era mais o que quer que fosse.

     Decidiu aguardar um pouco e pensar. Estava cedo. A noite mal tinha começado. Olhou com seus vários olhos para a porta oposta a que Marcelo ia. Não havia movimento ali. Ficou curiosa. Tinha um bom pressentimento quanto ao lugar. O prédio era sombrio, as paredes acinzentadas. Viu seu escolhido desistir de tocar a campainha e dar meia volta, quando finalmente a porta de abriu. Outro homem.

 

3

    Do outro lado da porta, já quase indo embora, Marcelo o encara de onde algum tempo antes Ana desejara boa sorte.

 - Desculpe a demora – quase suplica Régis.

     Marcelo volta para perto da porta, sorrindo no que pareceu um convite para entrar, embora o dono da casa fosse ele.  

 - Besteira, tudo bem – diz o outro, se aproximando da porta - Te dispensaram hoje, né?

- Por causa da mudança, sabe como é que é –responde Régis, sem saber onde enfiar as mãos, que tom usar.

- Sorte sua. Aquilo lá estava um inferno hoje.

- É? – responde Régis, cheio de vontade de falar mil coisas ao mesmo tempo e se achando um idiota por só conseguir produzir uma única vogal.

     Ficam parados um instante.

 - E a Ana?- quebra a pausa Marcelo - Ela veio te ajudar?

- Veio, mas já foi.

- Vocês estão...

     Á princípio Régis não entende. Mas quando o Tico e Teço dentro de sua cabeça dão o alerta, ele se apressa em responder.

 - Ela é só uma grande amiga.

     Marcelo abre um sorriso.

 - E eu vou poder entrar?- pergunta ele.

- Pô, desculpe – responde Régis, dando um passo para trás para dar caminho ao outro -  É que eu tô nervoso.

     Marcelo parece sorrir mais ainda, embora sua boca não tenha mexido nada e começa a entrar, mas para a meio caminho.

 - Você tem certeza? – insiste.

- Se você não for um vampiro... - responde Régis, se sentindo inquieto por um instante.

     Marcelo parece pensar um pouco.

 - Vampiro, não, mas... antes de entrar de vez, tem uma coisa que você precisa saber.

     Régis se retesa, preocupado.

 - Você me pareceu sincero dizendo que ia ser sua primeira vez. Então é melhor eu ser sincero também.

     Ele dá uma pausa que faz Régis lembrar tudo de ruim que já passara sufocando o que sentia, relegando seus desejos, permanecendo “imaculado”. Quando Marcelo falou, foi como se uma grande pedra caísse em cima dele.

 - Eu sou HIV positivo.

     Régis estranha. Era assim que o coiote se sentia quando caia no desfiladeiro, antes da bigorna que tentara jogar no Papa-léguas caísse em cima dele para complementar a cena?

 - Eu tenho AIDS – concluiu Marcelo – Vai querer mesmo que eu entre na sua vida?

     Não precisava. Régis já entendera na primeira e só arregalou os olhos porque não achava justo. Demorou tanto e quando finalmente achou que ia engrenar, o motor morreu.

    Marcelo olha intensamente para Régis e engole em seco ante a rigidez do outro.

    Ficam parados toda a eternidade de menos que meio minuto até que Marcelo abaixa a cabeça e começa a recuar.

    Nessa mesma eternidade de menos que meio minuto, mil coisas passam na cabeça de Régis, antes que ele erga o braço e detenha Marcelo antes que ele saia pela porta.

- Sim.

    Fitam-se com intensidade, Marcelo ainda incerto.

- Entre – conclui Régis, fazendo uma pressão leve para puxar o outro para dentro.

    Sem um pio, Régis puxa Marcelo para dentro e fecha a porta.

 

 4

     A mosca ficou observando com paciência os dois homens conversando antes de Marcelo finalmente entrar. Antes mesmo que a porta se feche, a mosca alça vôo e decide entrar no apartamento inerte.

     Já lá dentro, não viu mal em abandonar aquela forma para observar de uma outra forma o que havia ali. Era um apartamento pequeno e tinha muito pouca coisa. Animou-se. Pela maneira descuidada em que o mesmo estava, provavelmente era habitado por um só morador, e decididamente homem pelo que pode constar pelas revistas que estavam na parte de baixo de uma mesinha de centro.

     Zumbiu e se aninhou num canto, pondo-se a aguardar.

     Levou ainda uma hora antes que Ricardo abrisse a porta e entrasse, falando com as plantas que estavam no corredor da entrada.

 - Oi, Betânia, Elis – disse ele, observando as folhas – Como é que vocês estão?

     Ele caminhou até a cozinha e abriu a geladeira, procurando algo. Virou na direção das plantas  voltou a falar com elas.

 - Ué, vocês beberam minha cerveja?

     A mosca gostou dele. Decididamente melhor que o outro, embora menos encorpado.

     Ele volta para sala com uma garrafa de água na mão e joga o jornal que tinha embaixo do braço em cima da mesinha de centro, apanhando o controle para ligar o som. Uma música que não dizia nada a mosca começou a tocar.

     Ricardo sentou no sofá e bebeu direto do gargalo.

     Na primeira página do jornal, em letras garrafais, podia-se ler:

            NOVA VÍTIMA DO ARRANCADOR DE OLHOS FOI ENCONTRADA

     Isso não era bom, pensou a mosca. Um último trabalho e pronto. Era hora de procurar novas paragens. Observou Ricardo coçar o saco e bocejar.

     Ótimo. Ele logo estaria dormindo.

     E realmente, pouco depois, Ricardo tenta terminar mais algumas páginas do livro que começara a ler deitado na cama. Não chega a dez frases antes de começar a roncar baixinho, o livro largado de lado.

     E então, tudo fica azul e Ricardo está novamente na sala. Ele tenta falar algo mas nenhum som sai de sua boca. A sala está esfumaçada e por um instante ele chega a acreditar que seu apartamento está pegando fogo. Ele dá um passo, já querendo fugir e pisa em algo que parece estourar sob seus pés.

     Ele se abaixa para ver em que pisara.

     O que era aquilo? Há várias coisas arredondadas no chão.

     Ele estende a mão e apanha uma, aproximando do seu rosto. Toma um choque ao constatar que aquilo era um olho. Um olho humano. Ele solta aquela coisa nojenta ao mesmo tempo em que percebe que provavelmente tinha pisado num outro. E descalço.

     O olho que largara cai perto de mais uns espalhados no chão.

     Ricardo percebe que eles estão quase alinhados e segue a direção deles. Estranha ao ver que algo flutua acima dos que estavam mais afastados. Espera a fumaça se dissipar um pouco e se surpreende ao ver que o que está ali acima dos olhos é uma mulher, diferente, mas ainda assim uma mulher. Ela era pálida e usava um vestido que mais parecia uma junção de trapos negros. Ela sorria para ele, como se flutuar fosse a coisa mais normal do mundo.

     Ricardo recua sem entender o que está acontecendo. Encosta na parede atrás dele. Pelo menos, se era seu apartamento deveria haver uma parede atrás dele. Só que a superfície na qual encosta é gosmenta e lhe causa um arrepio. Ao olhar para trás, vê que há milhares de olhos incrustados na paredes atrás de si.

 - Ricardo – ele ouve a mulher chamar.

     Ele não quer olhar para ela, mas ao mesmo tempo sabe que não pode evitar.

    Vira-se com medo. Ela não está mais flutuando no meio da fumaça.

     Então onde diabos está?

 - Ricardo – ouve novamente.

     A fumaça se dissipa e ele vai atrás do som. Se ainda havia algo de seu apartamento nesse pesadelo, ela devia estar chamando do quarto.

     Ele se aproximou da porta e olhou para dentro, na direção da cama.

     Ela estava lá, deitada em sua cama.

     Ele se aproxima com passos incertos.

     O que acontece então é tão rápido que mesmo que ele quisesse entender, não conseguiria captar de uma forma raciona o ataque dela.

     A um metro da cama, ela se jogou contra ele sem precisar mover um músculo, era quase como se fosse pensamento em forma de gente e o que ele viu agarrá-lo já não se parecia mais uma mulher, mas mais uma coisa com uma cabeça grande cheia de olhos.

     Ele não sabe se teve tempo de gritar ali, mas com certeza estava tentando gritar na escuridão do quarto, à medida que acordava.

     Só que algo está errado.

     Ele não estava acordando sozinho. Alguém estava tapando sua boca.

     E o pior. Mesmo na escuridão do quarto, ele devia ser capaz de enxergar algo. Alguém estava tapando sua vista também.

     Ia tentar gritar mais uma vez, quando quem quer que estivesse tapando sua boca pulou para cima da cama, se colocando por cima de seu corpo.

 – Sssss, não grite...

     Menos mal. Era a voz de uma mulher, pensou Ricardo. Ele se agitou. Percebeu que ela o prendera na cama. Seus pulsos e pernas estavam amarrados. Ela tirou a mão de sua boca.

 - Quem é você? Por que está tapando meus olhos? E por que eu tô amarrado?

- Acalme-se...

– Acalmar? – gritou Ricardo - Que brincadeira é essa? Quem é você?

– Já ouviu falar dos homens que morreram com os olhos arrancados?

– Quê? - foi a primeira coisa que ele conseguiu dizer, ainda acordando, mas uma sensação de que sabia do que ela estava falando passou pela sua cabeça -  Como é que é?

– Ouviu?

    Ele faz que sim.

– Fui eu quem arrancou os olhos deles.

    Ele engole em seco. O lado bom de que era uma mulher na cama dele não compensava o lado ruim de que era uma maluca com mania de sangue.

– Meu nome é Tâmia. Eu te amarrei para poder te fazer uma proposta.

     ‘Tá aí uma coisa estranha’, pensou Ricardo.

 – Proposta?

– Eu fui amaldiçoada no tempo em que os deuses ainda perambulavam por essa terra. Minha beleza causou a inveja de uma deusa poderosa e ela me condenou a vagar eternamente, arrancando os olhos de qualquer homem que me olhasse. A maldição só poderá ser quebrado se eu conseguir fazer amor com um homem que não me olhe.

– Você quer dizer...trepar?

– Se assim preferir.

    Hum, a situação já não parecia tão mal quanto antes, analisou Ricardo. Provavelmente aquela guria era uma ninfomaníaca com alguma fantasia absurda e que se aproveitara da tal história do psicopata para dar mais um tempero a sua tara.

– Isso é brincadeira? - perguntou Ricardo, por via das dúvidas. Afinal isso podia ser alguma armação da Sílvia com outra amiga só para ver o que Lee faria. No mínimo Sílvia estava escondida no armário. Hum, como será que Sílvia conseguira a chave?

– Você acha brincadeira o que fiz com as pessoas que matei?

    Ele faz que não. Ela era boa, estava segurando o personagem muito bem. Ah, essa Sílvia. Ia dar uma coça nela quando isso acabasse. Vê se é hora de brincadeira. Nem dia. Queria ver como ia ser acordar amanhã de manhã para ir trabalhar depois dessa palhaçada. De qualquer forma, resolveu levar aquilo até o fim para ver como ia terminar.

– E então? Fará amor comigo?

– Você é mesmo bonita?

– Sou. Fará amor comigo?

-  Se é por uma boa causa, faço – disse, quase querendo rir - Você vai me desamarrar?

– Vou. Mas lembre-se: você não pode olhar para mim. Promete?

– Prometo – disse Ricardo, torcendo para que pudesse faturar mesmo aquela ali, esperando que ela fosse ao menos comível.

– Ótimo, senão eu teria que arrancar os seus... – foi o que ele ainda ouviu ela dizer quando os dedos dela se afastaram da frente de seus olhos e ele se apaixonou por aquela mulher deslumbrante que estava em cima de seu corpo e que mesmo na penumbra, tinha formas esculturais. Mas quase no mesmo instante, ele deve que esquecer disso para poder gritar quando as unhas dela penetraram em seus olhos com violência.

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