ANTES DE DORMIR - SEM SAPATO E SEM MEIA

- A gente vai ter que cumprimentar a família, né?

- Melhor não - responde Isaias - Não consigo tirar os olhos dos pés dele.

Romão entendeu o que o outro quis dizer.

Miele prevendo sua morte iminente pediu algo inusitado: ser enterrado descalço e sem flores dentro do caixäo, que também teria que ser o mais simples possível, de preferência com uma madeira que fosse facilmente quebrada. Falada, a ideia poderia até ser interessante, mas assim na prática, era exdrúxula. Miele dissera ter se baseado em um documentário que ele viu sobre o enterro do cineasta Glauber Rocha.

- Vamos cumprimentar ou não?

- Não sei... Eu nem os conheço direito. Acho que eles também nem sabem quem a gente é.

- O Miele era muito na dele, né?

- Era.

- Nunca chamou a gente pra nada na casa dele.

- É.

- Nunca chegou junto.

- É.

- E se o chefe perguntar se a gente cumprimentou a família?

- Pra que ele ia perguntar isso?

- Sei lá - murmurou Romão dando de ombros - Mas, e se perguntar?

- Vamos ficar aqui mesmo, daqui a pouco estao fechando o caixão. Se o chefe quisesse, ele mesmo viesse.

- É - aquiesceu Romão, comprimindo os lábios, concluindo entredentes - Ele é que devia ter vindo. Vou dar um mijão e já volto.

Isaias viu o colega de tabalho se afastar na direção do mictório e depoois olhou mais atentamente as pessoas na capela. Todas tinham um ar triste, mas ao mesmo tempo havia algo que parecia não se encaixar, como se houvesse um quadro torto no ambiente que por mais que você tentasse endireitar, a parede e a moldura não se entendiam. Podia ser viagem, mas Isaias estava encasquetado com uma sensação ruim de antecipação, como quando seu time corria o risco de ser rebaixado e tinha um jogo difícil pela frente . Talvez fosse o desejo de ver logo o corpo sepultado, devido aos extravagantes pedidos do morto. Lembrou que um ano atrás, Miele já falava como queria que seu enterro fosse. Isaias riu para dentro, mas de nervoso, ante aquele pensamento mórbido do cão. Naquele tarde, entre caixas de estoque a serem checadas, perguntou a Miele se este estava pensando daquele jeito já com a intenção de não desperdiçar dinheiro mesmo depois de morto, querendo um funeral tão chifrim assim, ao que Miele respondeu: dinheiro não. O que eu não quero é desperdiçar tempo. O colega de trabalho se calou confuso e o quase morto riu e alegou que queria que os vermes o alcançassem sem muito problema.

Como disse antes, pensamento mórbido do cão.

E então, em um ano morre Miele.

Ele morrera do nada no dia anterior. Fora dormir com uma leve dor de cabeça pelo que ouviu falar, passou mal no meio da noite e catapimba, empacotou. Foi dessa pra melhor sem nem chance de SAMU ou amém.

Mas pelo menos seus desejos foram devidamente atendidos.

Ser enterrado sem sapatos. Que coisa mais doida. Se fosse de sua família, duvido que os parentes deixassem. Ia ter guerra no velório. Ia voar vela e flor pra tudo que é canto. Mas a família de Miele levou a sério o desejo dele. Últimos desejos ainda são um fraco da humanidade, pensou Isaias enquanto Romão voltava a ficar do seu aldo no mesmo instante em que a tampa do caixão era fechada. Isaias chegou a pensar que eles tinham feito issoantecipadamente para evitar constrangimentos ante aquela figura sem vida e sem meias.

Ou não. Quem já tinha que ver o defunto descalço, já vira.

O cortejo parte em romaria para a cova cavada a uns cinquenta metros da capela. Por sorte o dia não estava tão quente apesar das poucas nuvens no céu. Uma previsão de chuva ao final da tarde não comprometia o enterro. Umas trinta pessoas seguiam o caixão levado num carrinho feito para tal, empurrado com cuidado por meia dúzia de funcionários do cemitério.

- Estranhos os desejos do Miele, não acha?

- Acho, mas pelo menos a família respeitou. Acho que isso evita qualquer possibilidade dele vir puxar o pé de alguém no meio da noite.

Romão e Isaias trabalhavam com Miele em uma loja de livros da zona sul. Apesar do nome de respeito, era mais uma empresa que ameaçava fechar devido aos péssimos hábitos de leitura desses novos tempos. Romão achou que ao menos Miele se livrara da apreensão cotidiana do mercado fragilizado.

- Enterros deviam ser sempre assim, aos domingos - ponderou Isaias - A gente já mata a missa e o ritual tudo de uma vez.

- Você costuma ir à missa?

- Todo domingo de manhã - retruca o colega, num tom lamuriento - Velhos hábitos teimam em assombrar a consciência. Mas minha fé já não é mais a mesma. Até essa coisa de morte. Não acredito mais num pós vida, em uma salvação. Tudo tem um fim afinal. Até pra quem morre. Não há nada. Não espere nada.

- Meu avô dizia que só há recomeço para quem está vivo.

- Seu avô é dos meus.

Isais reparou as lápides e túmulos que ladeavam o corredor principal. Antigas e bem ornadas. Se a moda do Miele, pegasse, todo esse requinte ia ser só algo do passado mesmo. Será que as próximas gerações iam se preocupar com coisas assim?

Alheio, Romão andava em frente mais interessado na ponta de seu próprio sapato. Queria ter vindo de tênis, mas achou que não seria apropriado. Escolheu uma roupa mais formal, diferente do amigo que dali poderia sair direto pra um passeio na orla de Copacabana.

- Tudo tem fim - repetiu Isaias.

"Até a etiqueta", pensou Romão.

- O pior é pra família - filosofou Isaias, que parecia inspirado hoje - Ela tem que reaprender a viver sem a presença do Miele, sem as tiradas sarcásticas dele, sem o dinheiro dos biscates. Agora começam os "como vai ser agora?", "O que é que a gente vai fazer?"

- Acho que nesse momento só há espaço para o lamento.

- Claro que não - rebate Isaias, olhando para o colega de trabalho que continuava a caminhar entretido com o chão rachado do cemitério - Só nesse meio tempo eles já tiveram que pensar em várias coisas práticas que trazem a secura do nosso mundo pra dentro do enterro. Eles já devem ter tido que colocar os pés no chão na hora de escolher hora, avisar parentes e amigos, decidir como ia ser o enterro com um mínimo de civilidade apesar dos pedidos estapafúrdios do Miele...

- Você é mais razão que coração - solta Romão com um riso baixo e curto, mas ainda sem erguer a cabeça dos próprios pés.

- Eles estão sofrendo? Estão. Mas ao mesmo tempo seus cérebros já devem estar num processo de se reinventar. Ao morto, a morte. Ao vivo, as consequências. Por isso guerras não são interessantes.

- Oi? - estranhou Romão, finalmente erguendo os olhos para Isaias, sem entender o que este queria dizer. Ao fazer isso, percebeu sem dar atenção que o dia logo perderia a cor, graças ao avanço de grandes nuvens cinzentas no horizonte

- Nas guerras são muitas mortes juntas, muitas atrocidades, tudo perde o tom - filosofa Isaias embolando os dedos como se preparasse uma massa de pizza invisível - Perde o significado. Por isso boa é a morte assim, em família, que arrasta todos pra dentro do túmulo. Aí sim o espírito do ser humano é testado. Ou você é enterrado junto, ou preenche o vácuo e refaz sua vida.

- Nossa! - exclama Romão estupefato, mas não pelo que o colega falou  e sim ao ver por trás dos ombros dele mais nuvens negras se aproximando pela esquerda. Lembrou que se chovesse, estaria desprevenido. Não tinha trazido um guarda-chuva.

- A única diferença aqui é que até parece que o Miele não quer permanecer morto muito tempo.

"Parece estar doido para sair do caixão", pensa em dizer, mas as palavras morrem em sua boca, quase que como impedidas de serem pronunciadas. Ele se detem, com a boca entreaberta, querendo cuspir seu último pensamento. A sensação de desconforto que sentira antes voltando em carga dupla.

Romão volta mais uma vez a sua atenção ao sujeito do seu lado e as nuvens por trás dele. Ele está prestes a comentar sobre a chuva braba que parece estar se aproximando, mas vê que o cortejo já ia parando em frente a uma cova rasa. Os dois tinham ficado na retaguarda, se afastando devido ao papo furado que podia ter incomodado alguém. Mantiveram-se na periferia do grupo enlutado e deixaram a cerimônia correr, sem mais trocar qualquer palavra.

A cerimônia foi breve. Desceram o caixão, jogaram terra em cima, algumas rosas vermelhas e brancas foram atiradas na tampa de madeira, um único arranjo de flores bancado pela livraria foi colocado adequadamente (Isaias tirou uma selfie compenetrado encaixando o arranjo ao fundo para mostrar ao chefe deles, enviando a foto por whatsapp).

Mais cumprimentos solidários à família e o cortejo começou a se desfazer.

- Acho que já podemos ir - sussurrou Romão.

- Acho que sim - respondeu Isaias no mesmo tom, ao mesmo tempo em que pegava seu celular para ver a hora. Eles teriam que voltar ao trabalho e percebendo uma mensagem em resposta a foto que enviara, torceu para que seu chefe os estivesse dispensando por hoje.

Ledo engano.

Era apenas uma mensagem de texto curta que dizia: Ele já se levantou do caixão?

Isaias franziu o cenho e ficou perplexo com aquilo. Foi quando ouviu um grande barulho vindo às suas costas, vindo de onde os funcionários do cemitério até a pouco jogavam pás de terra na cova ante os olhos da família, últimos remanescentes ao pé do buraco. Os funcionários estancaram agora estarrecidos. Alguns dos membros da família de Miele pareciam sorrir, mas era um sorriso nervoso, feio, que parecia distorcer o rosto. O barulho de madeira quebrando continuava. O barulho vinha do buraco. Romão, nervoso, agarrou o braço de Isaias, querendo recuar, mas paralisado de medo, achando que o colega de trabalho talvez pudesse dar o impulso necessário que os dois precisavam pra sair dali.

Mas Isaias olhava fascinado pro buraco.

Talvez houvesse um após vida no final das contas. 

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